DE SÃO PAULO
Pouco antes de morrer, Itamar Assumpção fez um acordo com a filha mais velha, Anelis. Ele produziria o primeiro álbum dela. Mas, antes, ela o ajudaria a reeditar toda a sua obra fonográfica, gravada desde 1980.
Itamar se foi em 2003. Sua "Caixa Preta" foi lançada no ano passado, embalando todos os dez trabalhos que produziu em vida e mais dois totalmente inéditos --tudo sob direção de Anelis.
E a estreia da filha acontece agora, com o álbum "Sou Suspeita. Estou Sujeita. Não Sou Santa.", que deve chegar às lojas em duas semanas. E que, conforme prometeu, Itamar ajudou a produzir.
Não há nada de místico ou esotérico nessa frase.
Anelis conta que foi justamente com o dinheiro recebido pela comercialização da "Caixa Preta" que as gravações de seu trabalho foram bancadas. O investimento, no final das contas, foi de Itamar. Mas não só isso.
Artisticamente, a personalidade do pai dirigiu, em boa medida, os passos que a filha daria. Isso porque foi durante a produção do póstumo "Pretobrás 2 - Maldito Vírgula" que o "Sou Suspeita..." da filha amadureceu.
Anelis acompanhou de perto a transformação das gravações caseiras deixadas por Itamar em música finalizada, sob as mãos do produtor Beto Villares. E redirecionou o próprio trabalho depois da experiência.
"Cara, essas coisas são muito loucas", diz Anelis. "Não consegui terminar nada meu enquanto não concluí a 'Caixa Preta'. Tinha horas que eu ficava até angustiada, 'por que ele foi fazer isso comigo?'. Só depois fui entender o que estava acontecendo nesse processo."
COTAS PRÉVIAS
O restante do dinheiro Anelis levantou em esquema de venda de cotas prévias.
Funciona assim: antes de ter o produto pronto, o artista vende pacotes de CDs, LPs (o álbum também sairá em vinil), camisetas e até convites para o show de estreia.
"Isso acontece bastante lá fora, mas aqui os artistas ainda se sentem humilhados, como se estivessem pedindo esmolas", diz. "Isso é uma bobagem. Não é um favor, é um investimento no artista."
Anelis conta que chegou a inscrever seu trabalho em editais para conseguir a verba de finalização. Não foi aprovada em nenhum deles.
"Percebi que estava concorrendo com meus amigos. E torcendo contra eles. É uma parada desumana em que todo mundo acaba caindo", diz. "A moeda só mudou de dono. Antes, quem mandava no que seria ou não lançado eram as gravadoras. Agora, é a Natura, a Petrobras."
SOBRENOME
Anelis retirou o sobrenome Assumpção da capa do álbum, mas afirma que isso não significa uma ruptura familiar. É a voz e o violão do pai que abrem o trabalho.
"Ser filha não é fácil, e eu tive que entender quem eu sou, quem meu pai era, quem é hoje", diz. "E ele tinha que estar comigo no disco. E não era no meio, nem no final. Tinha que abrir pra mim. Agora os acordos que fizemos, eu com ele e ele comigo, estão cumpridos."
Na infância, Anelis costumava acompanhar o pai em shows pelos mais variados palcos da cidade. Moravam na Penha, zona leste. Ia com ele à tarde, de metrô, para assistir à passagem de som.
Ficava por ali até a noite, assistia ao espetáculo da coxia, dormia sobre casacos em algum canto improvisado do camarim. Muitas vezes, tinham que esperar o dia amanhecer para que o metrô abrisse de novo e pudessem voltar para casa.
Foi assim, sem abrir nenhuma concessão artística, que Itamar Assumpção construiu sua monumental obra e sua pequena fama comercial.
Tanto obra como fama parecem só agora estar ganhando nova dimensão e maior reconhecimento. Anelis --a filha, a produtora e sobretudo a artista que agora, finalmente, se apresenta ao mundo-- tem muito a ver com isso.
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