DE SÃO PAULO
Fosse um daqueles antigos LPs, o livro "No Buraco", que Tony Bellotto lança hoje, em São Paulo, poderia ser o lado B do autor.
Leia trecho de "No Buraco
Teo Zanquis, narrador da história, é um guitarrista cinquentão. Participou de uma extinta banda que teve um único sucesso em sua carreira nos anos 80. Hoje, esquecido e sem grana, vive numa quitinete do centro de São Paulo. Afora isso, sempre teve relacionamentos problemáticos com as mulheres.
Já Bellotto, como se sabe, é guitarrista e compositor dos Titãs, enveredou para uma carreira literária de sucesso e é casado com uma estrela de TV (Malu Mader).
"No Buraco" é seu romance mais pessoal. "Esse é o livro que queria ter feito desde que comecei a escrever."
Ele estreou na literatura em 1995, quando publicou o policial "Bellini e a Esfinge".
Escrever uma história que tivesse o mundo da música como centro era uma ideia antiga que tomou forma quando construiu Zanquis, seu alter ego às avessas.
"Os conceitos de sucesso e fracasso são muito tênues. Quis me ver como um fracassado completo, que é o que eu sou às vezes também, como todo mundo", diz ele.
O romance começa com Zanquis na praia de Ipanema, no Rio, com o rosto enterrado na areia. A vida dele está, literalmente, no buraco. De lá, começa a relembrar sua vida e trajetória musical.
Na década de 80, ele participou da banda Beat-Kaimaiurá. Não era um conjunto de primeiro time, mas conseguiu estourar um sucesso nas rádios. Em seguida, Zanquis enterrou-se no mais completo esquecimento.
Hoje sua rotina de antigo ídolo do rock consiste em caçar ninfetas e visitar sebos musicais em São Paulo. Sem ilusões, rumina as estripulias dos tempos de glórias.
As passagens sobre bastidores das bandas na década de 80 são algumas das mais hilárias do romance. Bellotto, que viveu intensamente o período, parece exorcizar os excessos da geração.
"Foi muito variado, foi o auge do rock em termos de linguagem e de mercado. Por outro lado, teve muita coisa cafona, de chorar. Nós pagamos muito mico", ri ele.
Se muito os separa, criador e criatura compartilham uma visão de escárnio sobre o atual cenário musical. Fazer rock no Brasil, diz Bellotto, é sempre um paradoxo.
"Nunca foi a grande música do país. Hoje o rock quase não toca no rádio e na TV. As únicas bandas que fazem sucesso comercial são as emos ou bem românticas. Tudo diferente do espírito de contestação da nossa época."
Também como Zanquis, Belloto completou 50 anos. Envelhecer no mundo do pop é outra das contradições que ele tentou transformar em ficção.
"É inegável que todo cara que permanece no rock vira uma coisa meio patética: um velho num mundo dos jovens querendo parecer um jovem. Mas não chega a ser um grande problema nos Titãs. É muito legal perceber que ainda conseguimos falar com a garotada."
NO BURACO
AUTOR Tony Bellotto
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 43 (254 págs.)
LANÇAMENTO hoje, às 19h30, no Bar Astor (r. Delfina, 163, tel. 0/xx/11/3815-1364)
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
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