Jornal da Tarde
A célebre pianista dos anos 1960 deixou um vasto material no Rio de Janeiro, à espera de edição.
Conta a história que o compositor Claude Debussy, sentado na banca de admissão do Conservatório de Paris, encantou-se tanto com a prova da menina de 12 anos que foi até ela e pediu que se apresentasse de novo. A pequena era Guiomar Novaes, recém-chegada do Brasil. Para Debussy, foi uma revelação. E sensação similar teve, na semana passada, um pequeno grupo de jornalistas e músicos que, na manhã de sexta, ouviu pela primeira vez uma gravação até então perdida da pianista - um recital em Londres nos anos 1960, que marcou a inauguração do Queen Elizabeth Hall.
O registro foi garimpado pela pianista Lilian Barreto, que coordena, ao lado de Luiz Fernando Benedini, o Concurso Internacional BNDES de Piano. Este ano, em sua 2.ª edição, o evento vai homenagear o legado da artista. Há um momento Guiomar Novaes no ar. No final de 2009, depois de anos de ausência, o selo americano Vox lançou um disco duplo em que ela interpreta peças-solo e o concerto para piano e orquestra de Schumann, elogiadíssimo pela imprensa especializada internacional e revelando a uma nova geração de ouvintes sua musicalidade superior.
“Quanto mais pesquiso sobre ela, mais espantada fico com a importância que teve”, diz Lilian. Guiomar Novaes nasceu em São João da Boa Vista e foi aluna, em São Paulo, do maestro italiano Luigi Chiaffarelli. Começou a tocar aos 8 anos e, pouco depois, com auxílio do governo do Estado, partiu para a Europa. Sua carreira a levou para todos os grandes palcos europeus e dos EUA. O auge de sua trajetória não coincidiu com o boom do mercado discográfico, mas ainda assim ela deixou registros preciosos do repertório, em especial nas parcerias com o maestro Otto Klemperer e a Sinfônica de Viena.
“Ela foi a grande pianista brasileira, conhecida no mundo todo. É espantoso como foi amada. Nenhum outro artista brasileiro teve tanto reconhecimento. Ter sido convidada para o recital de inauguração do Queen Elizabeth Hall é uma prova disso. É impressionante que tenha sido esquecido”, diz Lilian, que na quinta-feira acertou com a família de Guiomar os direitos de lançamento da gravação.
“A primeira tiragem terá 300 discos para divulgação; mil exemplares para distribuição pelo BNDES; e dois mil para a venda no concurso, que será realizado em outubro e, este ano, tem novidades, como a compra de 20 pianos para que os candidatos possam se preparar para as provas. Depois, os direitos voltam para a família, de quem vai depender a existência de novas edições”, conta Lilian. A pianista faleceu em 1979, em São Paulo.
Na gravação, Guiomar toca a Sonata A Tempestade, de Beethoven; a Sonata em Si Menor, de Chopin; e quatro prelúdios de Debussy, mais quatro bis. “São minutos e minutos de aplauso”, diz Lilian. Na manhã de sexta, foram mostrados os primeiros movimentos de Beethoven e Chopin. O toque da pianista é reconhecível desde os primeiros momentos. “É daquele tempo em que pianistas tinham DNA próprio”, diz o maestro Julio Medaglia, presente à audição. “Os planos sonoros são impressionantes, cada um com seu timbre.”
Segundo o pianista Nelson Freire, o International Piano Archives, em Baltimore (EUA), tem centenas de gravações ao vivo e de estúdio de Guiomar, à espera de edição. “É constrangedora a amnésia brasileira em relação a seus intérpretes clássicos”, diz Benedini.
João Luiz Sampaio
segunda-feira, 10 de maio de 2010
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