quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Estadão - 'Sexo', o novo disco de Erasmo Carlos
16 de agosto de 2011 | 22h38
PEDRO ANTUNES
“Erasmo, lançar um disco com o nome de Sexo é dar liberdade para falar sobre isso. Você está preparado?”, pergunto a Erasmo Carlos, na tarde de ontem, por telefone. “Você quer falar sobre como é fazer sexo na minha idade? É bom, bicho. É como sempre foi. Nunca tive problema em falar disso”, rebate o músico, do outro lado da linha, de sua casa, na Barra da Tijuca.
O Tremendão chega aos 70 anos sem melindres. Fala de qualquer coisa e canta de tudo. Em 2009, ele lançou o disco Rock’n’Roll. Agora, chega às lojas o álbum Sexo. Sem pudor, ele entoa 13 canções que versam, principalmente, sobre a relação sexual.
As preliminares, o pós-sexo, a diferença entre sexo e amor. Tudo está envolvido com o ato em si. E tudo está reunido no novo trabalho do músico que, ao lado de Roberto Carlos e Wanderléa, liderou o movimento da Jovem Guarda, na década de 60.
O papo com Erasmo dificilmente foge da temática central do disco. “Você já usou Viagra?”, eu abuso. “Já usei, sim. Na verdade, foi um outro nome, mas o funcionamento é o mesmo. Foi ótimo!” O Tremendão não parece ficar tímido em nenhum momento. “Eu tinha fama de mulherengo? Eu tenho essa fama (risos)!”
O que Erasmo Carlos teme é que seu álbum seja rechaçado pela temática e pelo vocabulário – “gozo” e “orgasmo” são algumas das palavras mais frequentes entre as letras. Na verdade, ele tem certeza de que as pessoas vão torcer o nariz. “Mas o sexo é uma coisa de deveria ser mais tratada na escola. Deveria ser algo super normal”, diz.
Para o cantor, o grande problema é que, para muitos, o sexo está muito ligado à pornografia. “O sexo é criação, bicho”, defende. “Eu não entendo por que fazem tanto essa ligação com a pornografia. Um casal transando num quarto está fazendo pornografia também.”
Primeiro veio o rock, depois o sexo. Para completar a tríade mais famosa dos anos 1960 (“sexo, drogas e rock’n’roll”), Erasmo deveria partir para um disco que cante sobre drogas? Ele ri e responde: “Quando lancei o Rock’n’Roll, me perguntaram se viriam álbuns sobre os outros dois pilares, de sexo e droga. Isso, de alguma forma, me influenciou a gravar o Sexo. Mas não espere por um álbum sobre drogas”, diz. “É possível que eu faça sobre amor. O amor está no rock, no sexo e até nas drogas.”
A temática entre os dois trabalhos recentes pode até ter mudado, mas, sonoramente, Erasmo Carlos conseguiu manter uma progressão natural. Os discos dialogam entre si, com um rock setentista, blues, guitarras bem colocadas e cheias de arpejos, e teclados suingados. Tremendão não poderia estar mais satisfeito. “Isso foi uma coisa que eu sempre quis, sabia? Ter uma sonoridade minha.”
Muito disso se deve à parceria com o produtor Liminha, colaborador nos dois trabalhos. “Antes, eu entregava o arranjo inicial para os músicos, eles mudavam tudo. Com o Liminha, isso não acontece mais. Entrego esse esqueleto da música e ele não muda os acordes. Só veste o esqueleto.”
A sonoridade de Erasmo é um bom rock clássico e básico, sem firulas. Remete muito à alcançada pela Jovem Guarda. Até por isso – ele mesmo repara – que desde o lançamento do Rock’n’Roll, seu público tem rejuvenescido. “Na Virada Cultural (em abril deste ano, em São Paulo) foi assim. Não sou um artista que ficou parado na Jovem Guarda. Jamais esquecerei, mas quero estar sempre em movimento.”
Músicos mais jovens como Marcelo Jeneci e Silvia Machete revisitam a pureza e simplicidade da Jovem Guarda, num movimento capitaneado pelo polivalente Arnaldo Antunes, que, em 2009, lançou o ótimo Iê Iê Iê. Erasmo participou do DVD Ao Vivo Lá em Casa, do ex-Titã, de 2010.
Antunes, por sua vez, colaborou com duas das canções mais interessantes do álbum. A lenta Roupa Suja e a oriental Kamasutra, que versa sobre as posições sexuais mais curiosas: “Coqueirinho ajoelhado/Trapézio ou carrinho de mão/ Gangorra de cabeça pra baixo/ Em que posição?”. Erasmo Carlos garante que todas elas existem.
“Pesquisei na internet. Não conheço todas, mas há muitas que fazemos no cotidiano. Umas maluquices, e não sabemos o nome. Você me entende, né? (risos)”, pergunta Erasmo. “É…”, respondo. Ele não fica sem graça, mas eu, sim.
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