da Folha de S.Paulo
Quanto mais testados pelo tempo, mais maduros nos tornamos, certo? Não para o Massive Attack. "Acho que com o passar dos anos estamos ficando cada vez mais infantis, imaturos", brinca, apoiado por uma gargalhada, Robert del Naja.
Nascido em Bristol, Inglaterra, em janeiro de 1965, del Naja é, ao lado de Grant Marshall, 49, o corpo do Massive Attack.
Em uma espécie de "síndrome de Benjamin Button", a dupla parece ter nascido já com anos de experiência nas costas.
unidos desde o final dos anos 1980 (à época, como um trio; Andy Vowles saiu alguns anos depois), o duo lançou o primeiro disco, "Blue Lines", em 1991.
Enclausurado entre a barulheira grunge e o hedonismo da acid house, o Massive Attack desenhava ali um mundo distópico, escuro. Ao acomodarem sob o mesmo teto hip hop, dub, soul, tecno e house, fizeram emergir uma música densa, com contorno psicodélico e cativantemente lenta. Música adulta, madura, que depois ganharia o rótulo de trip hop.
Se logo de cara você já é homem feito, como amadurecer?
"[De lá para cá] Bristol mudou muito, a Inglaterra mudou, nossos fãs mudaram. O mundo mudou e nós acompanhamos essas mudanças. Faz parte do crescimento, não é?", diz del Naja, por telefone. "Nossa atitude em relação às coisas, não apenas à música, mudou desde o início dos anos 1990."
"Heligoland", o quinto disco do Massive Attack, que será lançado no início de fevereiro, é o que motiva a entrevista com a Folha. Diferentemente de "100th Window", de 2003, produzido quase exclusivamente por del Naja, o próximo álbum teve grande participação de Grant Marshall no estúdio.
É, Grant não estava muito envolvido no último disco. Temos visões distintas de música" -são notórias as divergências entre os integrantes do Massive Attack, desde a época em que eram um trio. "Quando saímos em turnês, nos damos bem. No estúdio é um pouco diferente, nosso humor varia muito. Ele adora baixo, quer colocar baixo em todas as faixas", brinca.
Como del Naja e Marshall preocupam-se mais em criar as bases do que em cantar, eles chamaram várias pessoas para participar de "Heligoland", como Damon Albarn (do Blur), Tunde Adebimpe (TV on the Radio), Guy Garvey (Elbow) e a cantora Hope Sandoval.
Uma das canções maiúsculas do disco, "Paradise Circus" possui batidas secas e quebradas, que ganham emoção com a voz sussurrada de Sandoval. Já "Pray for Rain" caminha em ritmo de marcha sob a voz firme de Adebimpe. "Gosto de chamar várias pessoas. Ajuda a nos inspirarmos, eles acrescentam algo [às músicas]."
Se em "100th Window" o Massive Attack trabalhou sem usar samples, em "Heligoland" eles tentaram criar algo "orgânico. Gravamos a bateria de forma limpa, sem muitas interferências. O disco soa como se estivéssemos tocando ao vivo".
Orgânico ou não, o Massive Attack ainda é nome eletrônico: "Se você quiser encontrar música original, experimental, tem de ir à eletrônica. É a que está sempre mudando, forçando os limites. A cena rock é nostálgica, cheia de besteiras".
Com o lançamento de "Heligoland" em fevereiro, o Massive Attack sairá em turnê. Já estão confirmados shows na Inglaterra e no México. Talvez estiquem até o Brasil.
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