segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

JT - ho que a predominância do axé gerou ódio e amor'

Jornal da Tarde

Daniela Mercury surgiu e explodiu no axé quando sua música ainda nem tinha nome. Nos anos 90, foi erguida ao trono do gênero, reinou na Bahia e testemunhou o nascimento de fenômenos como o É o Tchan!, Ivete Sangalo e Claudia Leitte. Consagrada com a ode a Salvador O Canto da Cidade, hoje, aos 44 anos, combate o frio de São Paulo e defende uma mistura mais híbrida e fina de ritmos, que mostra no novo CD Canibália (Sony, R$ 20). Por telefone, de Salvador, a cantora falou com o JT na última quinta-feira.

Você sempre defendeu que axé combina com tudo. Como define o seu som hoje?

Eu sou livre. O axé me libera e, como no antropofagismo, eu me defino canibalista, é o que me reina, a vontade de me fundir. É o mercado que tende a colocar isso na cabeça das pessoas: ‘Você é rock, você é MPB’, mas não existe isso...

Você decidiu fazer um documentário sobre o axé. Por quê?

O documentário será um manifesto de afirmação, vai falar desse universo particular da Bahia, que muita gente não entende apesar de dançar as músicas. O carnaval de Salvador virou um grande mercado de música, uma grande vitrine. O documentário já foi aprovado pela Ancine e devemos começar a gravar no ano que vem.

Ainda há preconceito com o gênero ou isso é passado?

Quando comecei, o que havia era curiosidade. Nunca senti preconceito só por ser baiana, nordestina, como aconteceu com Caetano e Gil na Tropicália. Mas, depois que vieram tantos artistas, fizeram uma confusão na cabeça. Essa confusão e o exagero, a quantidade de pessoas que surgiram, isso tudo fez com que as pessoas passassem a se incomodar, e isso gerou o preconceito.

Isso popularizou o axé, não? Vários grupos estouraram, como o É o Tchan!...

A predominância do axé gerou ódio e amor. A gente passou a ter um carnaval com mais gente do que quando cheguei, há 17 anos. Assim como tem gente boa, tem gente que não faz o trabalho com tanto cuidado. Não quero julgar ninguém porque isso é delicado...

E como estão as coisas hoje?

Meu sonho seria que compreendessem naturalmente o que está sendo feito. Há um preconceito em achar que axé não é música de boa qualidade, e isso é um equívoco. Também há uma questão brasileira; brasileiro não sabe se quer ser americano ou se quer ser europeu. É como se os burgueses quisessem uma música só para eles.

O axé é tachado de acéfalo, superficial, por se limitar a festejar...

É uma música vibrante e festiva, e a alegria, para alguns brasileiros, parece incômoda. Nossa filosofia na Bahia talvez seja mais de aceitação, mas a alegria é uma resposta para a dor. Dentro do carnaval tem todo um desafogar de mágoas. Mas em vez de fazer protesto como os roqueiros, a gente puxa para cima. É uma música afirmativa, positiva. É a nossa forma de ver o mundo, que eu acho extremamente sábia.

E para você, como é isso?

Faço música alegre porque gosto, me interessa, eu me apego a isso. Quando me perguntam por que somos tão alegres, eu digo: ‘Vocês são existencialistas e nós, sambistas.’ Eu me importo com as dores do mundo, sou totalmente comprometida como cidadã, mas vejo minha empregada chegar em casa feliz todos os dias e ela me diz: ‘Por que não?’

Essa generalização já foi um problema para você?

É lógico que você entra em um caldo. Eu sempre procurei interlocução com acadêmicos que pensam a cultura brasileira, mas as pessoas não conseguem ver separadamente. Cristalizaram minha imagem em O Canto da Cidade (disco lançado em 1992, que vendeu mais de 1 milhão de cópias). Eu já fiz tantas coisas nesses últimos 15 anos, discos diferentes, com DJ, MPB, pesquisas musicais diversas, mas olhavam para mim e só viam um lado. Quando há um movimento forte, de muita gente fazendo música de festa, só se vê aquilo. A massificação conduz a ficar dentro desse pacote...

Daí a ideologia de seguir na contramão, como você define?

Quando tá todo mundo para um lado, vou para o outro. Quando sentia que a gente estava se repetindo, que aquilo já tinha sido absorvido pelo coletivo, tinha necessidade de renovar o ambiente. Aqui em Salvador tem festa o dia inteiro, e se a gente não traz um elemento novo, fica rodando em volta do próprio rabo. Muita gente acha que tem de fazer música dançante do começo ao fim, eu não. Posso fazer qualquer coisa.

Isso não é ir contra o mercado?

Acabo sendo um E.T. Quando fiz o primeiro trio eletrônico, fiquei com o estômago nas costas do começo ao fim do percurso. Subi ali sem saber o que esperar. Vi de tudo. Tinha gente que me mandava andar, muita gente de braço cruzado. O povão da cidade, que estava acostumado a explodir quando eu passava, ficou me olhando como se eu fosse a pessoa mais estranha do mundo, como se eu fosse uma artista nova que chegava ali.

E você não mudou de ideia.

Achei fascinante o contraste que isso causou. A pergunta na cara das pessoas era: ‘O que é isso?’. Nem me reconheciam. Eu sou assim, sempre fiz coisas mais à frente. Antes não tinha mulher em trio grande, eu fui a primeira. Cinco anos atrás, não tinha a menor possibilidade de DJs virem para o carnaval. A música eletrônica está chegando só agora...

Você acha que não a levam a sério como artista?

É, eu tenho a sensação de que tem pessoas que ainda não compreendem meu trabalho, mas isso vai aos pouquinhos... Eu tenho 44 anos, me lembro que Elis (Regina) morreu com 36. Acho que ainda tem gente para me compreender. Só entender, sem entrar no juízo de valor se é bom ou ruim.

Por que acha que isso acontece?

Santo de casa não faz milagre, ou santo da Bahia não faz. Isso não acontece fora do País, onde quem me ouve não me associa a um gênero. Gostam ou não, mas antes veem valor naquilo e pronto. Tenho algumas coisas contra mim, né? Sou baiana, estou dentro de um contexto de alegria, sou uma artista de grande público. São três barreiras, as pessoas pensam que é impossível fazer música boa com essas características. Tenho orgulho de ser latina, brasileira e cantora de axé.

Isso não atormenta você?

Tenho certeza de que o que faço é interessante e bem feito. Não estou falando só porque eu acho, tenho anos de carreira e respaldo para acreditar nisso. Tive dificuldade em ter certeza - e é normal quando se faz um trabalho artístico. Se tem tanta gente que gosta, é impossível que eu esteja fazendo uma coisa que não é boa. Muitas vezes questionei que a unanimidade é burra, e é lógico que é burra, concordo, mas então se a maioria gosta, a música é ruim?

Está satisfeita com o trabalho das suas sucessoras, Ivete Sangalo e Claudia Leitte?

São cantoras talentosas, senão não estariam onde estão. O desafio agora é se manter. Tem coisas muito bonitas no trabalho das duas, uma preocupação cada vez maior com a execução. Cada uma está buscando a sua própria identidade. Ivete já é uma artista consagrada, tem um trabalho bem eclético, o que é bem característico da gente. Já tem uma obra que se pode observar para cada um escolher o que gosta. Claudinha é mais nova. Vejo arranjos bonitos no último trabalho dela, mas não conheço os discos anteriores.

Você nunca se atrelou a uma emissora de TV. Não acha que poderia ser um caminho para firmar a carreira?

Nunca fui refém de gravadora, de TV, nem de ninguém. Sempre tive muito medo de ficar tolhida. Isso é a minha morte. Se me tolher, eu morro.

Cantoras de axé sempre têm a imagem muito explorada. Quanto você acha que a beleza está atrelada ao sucesso na carreira??

Acho que, para uma cantora, se descolar da beleza é libertador e inteligente. A beleza tem tempo determinado na vida da gente, perece. Somos perecíveis ao tempo, mas a arte não, é atemporal. Se pautar muito nisso pode causar graves problemas depois...

Essa frase vinda uma avó de 44 anos que está ‘com tudo em cima’ chega a ser engraçado...

Pois é, mas isso é a preocupação física de toda mulher. E não tenho nenhum problema em falar disso. Além disso, ser avó é como um upgrade, uma graduação. Não pesa.

Você se mudou para São Paulo e recebeu o título de cidadã paulistana. Como está sua adaptação?

Ah, aqui (Bahia) é um Caribezinho. Um sol absurdo, essa praia convidativa, as pessoas se manifestam, conversam de outro jeito, têm uma aproximação natural. Em São Paulo, não. As pessoas ficam separadas, dentro de seus carros. Mudei por causa do meu marido, recebi uma convocação, mas sempre quis morar em centros maiores, sou urbana. Vou estar mais próxima do ambiente acadêmico, vai me abrir horizontes.

Ah, então eu tenho duas palavras para você: trânsito e frio.

(Risos) Ainda estou aprendendo a driblar isso, a sair de casa em horários certos e fazer minhas compras sem carro. Mas o frio... quando vi, estava andando de sobretudo e meia dentro de casa, como se estivesse em Nova York. Estou ‘botando’ vidro na varanda e comprei aquecedores. Ah, e claro, no meu apartamento vai ter lareira!

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