segunda-feira, 12 de abril de 2010

JT - Duas décadas de Jazz Sinfônica

Jornal da Tarde


A Orquestra comemora 20 anos de vida em seu melhor momento e com muita história para contar.
Sentado na primeira fileira do teatro Caetano de Campos, o maestro Cyro Pereira, 81 anos, transbordava de satisfação ao ouvir, repetidas vezes, a orquestra que ajudou a criar ensaiando uma versão de Manhã de Carnaval, composição de Luiz Bonfá e Antônio Maria. Por que ele não estava no palco, regendo? “Com a minha idade, tive de tirar o pé. Mas tenho muito prazer em ouvi-los. É como se contassem minha história”, diz.
A orquestra que se confunde com o seu maestro residente é a Jazz Sinfônica, que neste mês celebra 20 anos de existência. Hoje formada por 82 músicos e dona de um repertório de aproximadamente 1. 300 partituras, a Jazz (como é carinhosamente chamada) realiza 40 concertos por ano, quase sempre acompanhada por nomes importantes da MPB, como Gal Costa, João Bosco, Milton Nascimento, Paulinho da Viola e outros. Seu orçamento anual é de R$ 6,5 milhões e a média salarial dos seus músicos é de R$ 2. 200.
A ideia de criar uma orquestra que aposentasse Beethoven, Bach e outros clássicos e, no lugar deles, executasse um repertório genuinamente popular, foi do músico e compositor Arrigo Barnabé. Em 1990, ele participava da equipe do então secretário estadual da cultura, Fernando Moraes, no governo Orestes Quércia. “Eu cheguei com várias ideias. Queria, por exemplo, fazer um festival com Frank Zappa e outros músicos experimentais. Mas, é claro, essa proposta não colou. Consegui emplacar a ideia de uma orquestra popular”, fala Barnabé.
Mesmo com a criação da orquestra aprovada, ele tinha dificuldade para encontrar quem quisesse dirigi-la. “As pessoas estavam receosas, tinham medo de que ela virasse algo político”, diz. Foi aí que Barnabé chamou o cantor e compositor Eduardo Gudin para recrutar músicos e outros profissionais. “Tentei convencer o Cyro Pereira, que já tinha sido procurado pelo Arrigo, mas havia reclinado”, conta Gudin.

Erudito e popular

Cyro Pereira era o nome que Gudin tinha como fundamental para a criação da orquestra. Ele era o maestro e arranjador que, segundo Gudin, melhor saberia unir o erudito e o popular. Isso porque Pereira tinha sido o diretor da orquestra dos Festivais da Record (anos 60) e de programas como O Fino da Bossa, com Elis Regina e Jair Rodrigues. “Em 1990, as orquestras de rádio e de TV já estavam completamente extintas. Pereira entendeu que a Jazz Sinfônica seria como a realização de um sonho, uma continuidade na sua história musical. Depois de muita conversa, ele finalmente aceitou o convite”, diz Gudin.
Em abril de 1990, a Jazz Sinfônica começou seus ensaios. A violinista Lucia Ramos, 43anos, estava presente nestes primeiros dias. “A gente ensaiava em um lugar pequeno, no teatro 3 Rios. A música reverberava muito, não era confortável. Além disso, existia a desconfiança de que a orquestra não iria para frente”, conta Lucia.
A primeira apresentação da Orquestra Jazz Sinfônica foi no dia 8 de junho de 1990, no Memorial da América Latina - em um concerto regido por três maestros: Cyro Pereira, Luis Arruda Paes e Amilson Godoy. Mas os músicos consideram como sendo a grande estreia a apresentação no 21º Festival de Inverno de Campos de Jordão, que teve a participação de Tom Jobim. “Foi no início de julho. Ali, sim, foi um momento de grande emoção. Foi a confirmação de que a orquestra realmente existia”, fala o baterista Antônio de Almeida, 70 anos.
Logo no início, Arrigo Barnabé se afastou de orquestra - por considerar o resultado final um “tanto careta”. “Na minha cabeça, eu imaginava uma coisa mais experimental”, diz ele. Paralelamente, Gudin convencia músicos e maestros a aceitar acompanhar nomes da MPB. “Havia uma grande resistência no começo. Muitos diziam que não queriam tocar para canário cantar”, conta. “Mas eu insisti. Meu argumento era de que, ao acompanhar cantores de nome, a orquestra marcaria história. E foi o que aconteceu”, completa.
Ainda não existe nenhuma agenda especifica de comemorações para o aniversário da orquestra, mas apresentações especiais foram marcadas com a cantora Fabiana Cozza e Paquito de Rivera (ver programação à direita). “Hoje o público se identifica tanto com a orquestra que já espera nossas versões para Asa Branca (Luiz Gonzaga), Zanzibar (Edu Lobo), Frevo de Orfeu (Nelson Ayres) e Aquarela de Sambas (Cyro Pereira)”, diz o maestro titular, João Maurício Galindo. “O público foi conquistado quando os próprios músicos eruditos começaram a entender que tocar um repertório popular pode ser tão nobre como executar um autor clássico”, declara. Levando em conta esses primeiros 20 anos de vida, tudo indica que a Orquestra Jazz Sinfônica ainda dará muitas alegrias à música nacional.

DIVIRTA-SE
Show: 23 e 24 de abril, às 21h Jazz Sinfônica convida
Fabiana Cozza Auditório Ibirapuera
(Parque Ibirapuera). Grátis. 5 de maio, às 21h
Jazz Sinfônica convida Stan Kenton, Fuego CubanoSesc Pinheiros (Rua Paes Leme, 195. 3095-9400). Grátis.
28 e 29 de maio, às 21h
Jazz Sinfônica convida Paquito de Rivera
Auditório do Ibirapuera (Parque do Ibirapuera). Grátis.

AS FIGURAS DA JAZZ
Conheça alguns integrantes de destaque da Orquestra

Cyro Pereira, 81 anos, maestro e arranjador que deu a identidade a Jazz Sinfônica. Foi o responsável pelas orquestras dos festivais da Record, nos anos 60, e de programas como ‘O Fino da Bossa’.

Antônio de Almeida ‘Toniquinho’, 70 anos. Baterista que está na orquestra desde a fundação. É chefe do naipe de percussão. Fez parte das orquestras de TV da antiga Tupi e Record.

Carlos Alberto Alcântara, 75 anos. Há 18 anos na Jazz. “O que mais vale a pena é a mistura de músicos com formações diferentes. Como saxofonista, é o único tipo de orquestra em que encontraria espaço.”

Gerson Galante, 43 anos. Ele é saxofonista e começou a carreira profissional com apenas
13 anos. Aos 14, já tocava com Ivan Lins. “Sempre com a autorização do juizado de menores”, diz.

Patrícia Ribeiro, 38 anos. Violoncelista, com visual de roqueira. “Ninguém acredita que eu toco em uma orquestra. As pessoas olham para mim e acham que toco em banda de rock ou trabalho com moda”, diz.

Lucia Ramos, 43 anos. Toca violino desde o início da orquestra. “Eu era muito novinha. Foi meu primeiro trabalho mais sério com música. Eu ficava nervosa por tocar com tanta gente boa”, lembra.

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