sexta-feira, 30 de abril de 2010

JT - Na bagagem, Beethoven e doses de emoção

Jornal da Tarde

Orquestra Sinfônica de Heliópolis se prepara para turnê que vai fazer na Alemanha, em outubro.
A melodia melancólica de Villa-Lobos soa pela sala, enquanto, pela janela, a neblina da manhã de quarta-feira se dissipa e revela a paisagem a perder de vista de uma das maiores favelas da América Latina. A mesma música, no entanto, espanta qualquer tendência à tristeza – pouco antes, os cerca de 70 músicos da Sinfônica de Heliópolis ofereciam uma bela interpretação da Sinfonia nº 8 de Beethoven. A plateia era especial: músicos da Filarmônica de Berlim e a diretora do Festival Beethoven, de Bonn. Vieram acompanhar o trabalho da orquestra e acertar os detalhes da viagem que o grupo fará em outubro para a Alemanha, onde vai tocar Beethoven, Villa-Lobos, Tchaikovsky e André Mehmari numa série de concertos. “São tantas as lições que um projeto como esse nos dá! É um futuro que está sendo construído”, diz Ilona Schmiel, chefe do festival.
Parte mais visível das atividades do Instituto Baccarelli, que há décadas trabalha com crianças carentes na favela de Heliópolis, a sinfônica será tema também de um documentário do canal Deutsche Welle, parceiro do Festival Beethoven e responsável pela turnê do grupo por cidades como Berlim, Munique e Dresden. Desde o começo dos anos 2000, o canal tem corrido o mundo em busca de orquestras jovens para levar à Alemanha. “São enormes os significados de uma viagem como a que eles vão fazer à Alemanha. Eles levarão na bagagem Beethoven, mostrando a universalidade dessa música. Mas também é a história de cada um desses músicos que será mostrada lá, proporcionando uma troca de experiências muito grande. E essa troca é emocionante, empolgante mesmo”, declara Gero Schliess, diretor de Programação e Promoção da Deutsche Welle, que esteve em São Paulo esta semana acompanhando os ensaios.
Para um dos coordenadores do Instituto Baccarelli, Edilson Venturelli, fica claro nos olhos das crianças a emoção gerada pela viagem. “Imagina a quantidade de histórias que eles vão ter para contar na volta”, destaca. Os músicos ficarão hospedados em casas de famílias alemãs e terão contato com outros jovens instrumentistas do país, além de trabalhar com professores locais e com o maestro Yutaka Sado, que vai dividir a regência da turnê com o titular da sinfônica, Roberto Tibiriçá.
A viagem conta, ainda, com o apoio do Mozarteum Brasileiro – os artistas da temporada de concertos da entidade têm dado master classes para os integrantes da sinfônica; e o solista da turnê alemã será o violinista Shlomo Mintz, que vai interpretar o Concerto para Violino e Orquestra de Tchaikovski. A Deutsche Welle encomendou ainda uma obra ao compositor André Mehmari, Cidade do Sol, que vai estrear durante a turnê. “É fundamental para nós também o aspecto da troca de informações no que diz respeito à criação”, afirma.

Patrimônio

Após ouvir a interpretação da Sinfonia nº 8 de Beethoven, Ilona Schmiel conversou com os músicos da orquestra e brincou: “O maestro disse que esse é só o segundo ensaio de vocês, mas não acredito”. Mais tarde, se disse impressionada com o andamento imposto pelo maestro Tibiriçá, “bastante rápido”, e com a capacidade dos músicos de acompanhá-lo. “Há uma energia extremamente cativante na maneira de tocar dessa orquestra. Em Bonn, recebemos sempre orquestras de fora, mas desde agora estamos todos ansiosos pela presença desta. Quando os ouço, penso que essa energia fala muito claramente não apenas do futuro dessas crianças, mas, também, do futuro da própria música clássica”.

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