Jornal da Tarde
Grandes bandas da década de 70 chegam à cidade e aquecem o rock paulistano.
São Paulo está prestes a se transformar numa espécie de Costa Oeste dos Estados Unidos dos anos 70. Até o final do mês que vem, a cidade receberá shows de bandas como Aerosmith, ZZ Top, Johnny Winter e UFO, que estouraram há 40 anos e que devem inflamar o fogo que sobrou dos amantes da década de 1970.
Mais do que trazer o som pauleira daquela época, essas bandas entregam de bandeja uma tendência que vem ganhando força na cidade, de grupos que praticam no som e na estética os ensinamentos libertários dos hippies, filhotes de Woodstock. Tendência, aliás, que estará fortemente presente no final do ano, em Itu, na versão nacional para o festival de Woodstock. Entre as bandas brasileiras que, pelo estilo, podem tocar no evento, estão Pedra, Tomada, Massahara e Johnny Brechó, que fazem um som retrô sem esbarrar no preconceito.
“O rock brasileiro feito nos anos 70 está, até hoje, numa espécie de buraco negro. As bandas não saíram do underground e ainda são consideradas malditas”, diz Bento Araujo, editor da Poeira Zine, revista dedicada à música das décadas passadas. “As bandas de hoje ainda têm um pouco de temor de ligar sua sonoridade àquele período. Mas sinto que isso está mudando”, declara ele.
Um dos sobreviventes desta década é o guitarrista Xando Zuppo, de 42 anos, hoje na banda Pedra. Zuppo tocou com a Patrulha do Espaço, que já teve como integrante Arnaldo Baptista. “O que falta na nova geração é surpreender. Como na década de 70 tudo era permitido, cada show, cada lançamento era esperado com grande expectativa. Você ficava ansioso por um disco do Sabbath, do Led Zeppelin, do Deep Purple”, conta Zuppo. “Digo que a principal característica do Pedra é surpreender o ouvinte. Vamos do baião e flamenco misturado ao rock ao soul e funk nervosos. Não queremos ficar presos a um determinado movimento. Gostamos de misturar tudo”, destaca.
Espírito setentista
A Pedra, com dois discos lançados, assim como a Tomada, aposta em músicas autorais, o que dificulta a realização de shows pela cidade. “Os donos de bares querem ouvir covers. Não estão interessados em bandas com sons autorais”, diz Pepe Bueno, vocalista da Tomada, formada no final de 2000. O quarteto até abre exceções para versões para Rita Lee, Tim Maia e Mutantes, mas sem imposições. A Pedra funciona da mesma maneira. “Tocamos Cuide-Se Bem do Guilherme Arantes, música que o próprio cantor aprovou”, conta Xando Zuppo. Outro que carrega com orgulho o espírito setentista é Fábio Gracia, designer gráfico de 28 anos e vocalista e guitarrista da banda Massahara, que costuma caprichar no visual dos pôsteres dos shows.
Desde 2002 na ativa, o grupo fazia covers de bandas menos conhecidas, como Cactus e Grand Funk Railroad. “O público achava que as músicas eram nossas. Daí, decidimos escrever nossas próprias canções em português”, explica Fábio, que acha que falta pouco para uma cena de bandas calcadas na década de 70 estourar. “É preciso mais organização para a cena virar de vez”. Dino Rocker, vocalista do Johnny Brechó, vê a liberdade como característica fundamental para o rock de sua banda vingar no mercado. “Não somos uma banda psicodélica ou que faz alusão à essa década em si. Temos muitas referências e isso é apenas um dos ingredientes da nossa mistura”, diz. “Como ouvimos muito blues, jazz e Zeppelin, isso aflora inevitavelmente. Mas também ouvimos Cat Power, White Stripes, Kings of Leon, Magic Numbers. Ou seja, bandas que têm influência em comum com as nossas”, completa Dino, com a cabeça ligada nos anos 70 e a antena e os pés virados para os anos 2000. Conexão total.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
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