quarta-feira, 28 de julho de 2010

Folha - Luísa Maita traduz os paulistanos da periferia em disco

DE SÃO PAULO

Autora de canções ouvidas na voz de outras cantoras --como Mariana Aydar e Virgínia Rosa--, a paulistana Luísa Maita, 28, lança "Lero-Lero", seu álbum de estreia.
Além da versão nacional, o trabalho ganhou edições em Portugal, Inglaterra e Espanha, no mês passado. Nesta semana, chega também aos EUA, Canadá e México. Em outubro, à França.
Apesar do esquema internacional do lançamento, os personagens que percorrem a maioria de suas canções são tipicamente paulistanos --mais especificamente, figuras da periferia da cidade.
Luísa foge dos estereótipos de crime e violência. Constrói letras retratando sobretudo amizades e amores.
O disco ia se chamar "Maria e Moleque", nome que batiza uma das faixas. Vêm dela os versos a seguir (escritos por Rodrigo Campos, namorado de Luísa), que simbolizam bem o tom geral.
"E se amaram num opala de vidro fumê/ Em qualquer encruzilhada, Vila das Mercês/ Rita suspirava embevecida/ Encharcada, o próprio prazer vertia."
Luísa participou ativamente de "São Mateus Não É um Lugar Assim Tão Longe", primeiro trabalho de Campos, lançado no ano passado, que abordava ainda mais monotematicamente o tema.
Mas a intimidade com os personagens da periferia é anterior à parceria com o namorado --que, aliás, é coprodutor (com Paulo Lepetit e a própria Luísa) e assina mais duas faixas de "Lero-Lero".
Filha do músico Amado Maita (1948-2005) e da produtora musical Myriam Taubkin, ela morou, na adolescência, em uma espécie de comunidade hippie.
"O sítio ficava num lugar chamado Pedacinho do Céu, na extrema zona sul. Com o passar do tempo, uma favelona foi crescendo em volta dele", lembra. "Meus pais foram os últimos a sair dali. Vivi lá até os 11 anos."
Nesse cenário, conviveu com músicos como Sizão Machado, Léa Freire, Guilherme Vergueiro, Mozar Terra, os tios Benjamim, Daniel Taubkin e até o maestro Moacir Santos, que viviam por perto ou faziam visitas constantes.
E também, claro, com toda a criançada da favela.
"Ao mesmo tempo, estudava em colégio judaico, então convivia com o contraste", diz. "Observava os dois contextos, mas não me sentia parte de nenhum deles."
"Lero-Lero" são, portanto, as memórias dessa personagem-observadora.

LERO-LERO
ARTISTA: Luísa Maita
GRAVADORA: Oi Música
QUANTO: R$ 19,90

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