Jornal da Tarde
Era 1990. A cantora paulista Vânia Bastos e o compositor e cantor carioca Edu Lobo confabulavam um show juntos, em São Paulo. Chegaram a conversar sobre o assunto no Rio. Um impasse nas agendas, no entanto, fez com que o projeto não vingasse e, com o tempo, fosse esquecido. Vinte anos se passaram e o produtor Thiago Marques Luiz, sem saber dessa antiga história, propôs à intérprete um disco só com canções de Edu Lobo.
A velha chama se acendeu. E apesar de os dois nunca terem dividido o mesmo palco, Vânia se reencontrou com a obra do compositor, com direito a uma bela e interessante participação dele em ‘Gingado Dobrado’ (Edu Lobo e Cacaso), uma das 12 faixas de seu CD ‘Na Boca do Lobo’. O novo trabalho, ela apresenta hoje e amanhã no Auditório Ibirapuera.
“Ele é um compositor detalhista ao extremo. Mas pensei: ‘Vamos lá’. Ao mesmo tempo que existia a responsabilidade, o mergulho musical foi muito bom. Ronaldo Rayol (violonista e diretor musical do CD) conhece bem a obra dele”, conta Vânia. “Quando estávamos gravando, quis a participação do próprio Edu, que colocou voz em ‘Gingado Dobrado’ . Depois, mandei o CD para ele ouvir. Edu respondeu elogiando, o que me deu muita paz”.
Vânia disponibilizou sua linda voz a serviço de uma obra impregnada de brasilidade, transportada para o CD ‘Na Boca do Lobo’ em músicas como a instrumental ‘No Cordão da Saideira’, além de ‘Viola Fora de Moda’ e ‘Negro, Negro’ (ambas em parceria com Capinan) e ‘Upa Neguinho’ (com Gianfrancesco Guarnieri).
Da dobradinha Edu e Chico Buarque, Thiago, Rayol e Vânia chegaram a ‘O Circo Místico’ (que, na trilha original do disco ‘O Grande Circo Místico’, de 1983, era cantada por Zizi Possi) e ‘Meia-Noite’. Do compositor de diferentes momentos e parceiros musicais, eles selecionaram, ainda, ‘Canção do Amanhecer’ (parceria com Vinícius de Moraes) e ‘Vento Bravo’ (com Paulo César Pinheiro). No lado B do álbum ‘Missa Breve’, de 1973, que une o popular com o litúrgico, encontraram ‘Glória’, toda cantada em latim.
“As sugestões para o repertório vieram do produtor e do Rayol, inclusive algumas coisas que eu não me lembrava. Como no caso do disco ‘Limite das Águas’ (1976), que pediram para eu ouvir e é um lado escondido do Edu”, conta Vânia, uma das vozes marcantes da vanguarda paulista, movimento cultural presente em São Paulo entre final dos anos 70 e meados de 80 e do qual também fizeram parte nomes como Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé.
Não é a primeira vez que a intérprete revisita a obra de um compositor num álbum todo dedicado a ele. Ela já o fez nos discos ‘Vânia Bastos & Cordas – Canções de Tom Jobim’, ‘Cantando Caetano’ e ‘Vânia Bastos Canta Clube da Esquina’. “Sou cantora, não compositora. Acho bacana uma cantora brasileira interpretar seus compositores. Me sinto privilegiada em poder ter realizado isso”.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
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