DE SÃO PAULO
Nasi está só. Dois anos após anunciar que estava deixando a banda Ira!, da qual fez parte por 26 anos, o músico lança seu primeiro álbum (que é também DVD) solo, "Vivo na Cena". Apesar de ter passado talvez os dois anos mais conturbados de sua vida, Nasi diz que tanto conflito valeu a pena.
"O André Midani [um dos maiores nomes da indústria fonográfica brasileira, que foi presidente da Warner Music e da Philips, atual Universal Music], numa época em que os presidentes das gravadoras iam na gravação e ainda acendiam um baseadinho pra você enquanto ouviam sua mixagem, dizia que o rock precisa de escândalo", lembrou Nasi em entrevista à Folha.
"Tirando esse lado do escândalo e da exposição, o que eu ganhei em troca de toda essa luta foi a liberdade de estar hoje do lado de músicos que me respeitam e que eu respeito, de músicos, em quase todos os instrumentos, melhores do que aqueles que me acompanhavam e numa relação novamente de integração, cumplicidade, parceria, respeito e amizade", diz.
A banda de Nasi é composta pelo multi-instrumentista Johnny Boy, o tecladista André Youssef, o guitarrista Nivaldo Campopiano e o baterista Evaristo Pádua.
SAÍDA DO IRA!
Para Nasi, o Ira! tinha se transformado em um "grande emprego". "Eu não comecei uma banda de rock pra ter as mesmas frustrações de um emprego tradicional. A gente monta uma banda de rock pra impressionar as meninas e pra não ter patrão", diz.
"Quando eu percebi que estava como patrão e que não existia mais respeito, que era só emprego e todo mundo só botava o cachê no bolso, eu preferi me arriscar e abrir mão de tudo o que eu conquistei", completa.
Fora do Ira!, Nasi demorou quase dois anos para achar a sua "banda ideal". A partir daí, restou trabalhar no repertório, que ele queria que servisse como uma releitura de toda a sua trajetória.
Produzido por Roy Cicala, que durante anos foi o produtor do ex-Beatle John Lennon, morto em 1980, "Vivo na Cena" tem desde os conhecidos hits do Ira! "Tarde Vazia" e "Milhas e Milhas" até releituras de músicas como "O Tempo Não Para", de Cazuza, "Por Amor", de Zé Rodrix, e as ótimas "Bala com Bala", de João Bosco, e "Garota de Guarulhos", versão para "Jersey Girl" do cantor e compositor americano Tom Waits. Todas exploram a veia rock-blues de Nasi.
Cicala mora atualmente no Brasil e trabalha em conjunto com o produtor paulista Apollo 9, com quem Nasi já havia trabalhado anteriormente, e é especializado em gravação ao vivo [técnica que envolve todos os músicos gravando juntos numa mesma sala no estúdio].
"Isso trouxe uma atmosfera muito viva e eu não precisei colocar plateia no estúdio de gravação pra que a adrenalina, a emoção e o calor sobrevivessem", diz Nasi.
Para o show de hoje, Nasi promete um repertório 100% baseado em "Vivo na Cena", com algumas surpresas no bis. A apresentação terá ainda a participação dos músicos Marcelo Nova, Vanessa Krongold e Carlos Careqa.
BRIGAS
Nasi não esconde a mágoa que sente dos companheiros do Ira! e de seu irmão e empresário da banda, Airton Valadão.
"Eu criei e dei nome a uma banda chamada Ira! e hoje ela pertence a uma empresa, não pertence mais a mim, mas eu sabia que mais importante que tudo isso era o meu espírito, a minha alma, porque quem ficou com a marca ficou apenas com uma marca, eu fiquei com a imagem e a lembrança dos fãs que ainda me acompanham", diz.
"Eu estava empurrando com a barriga, a relação do Ira! estava insustentável já no meio do Acústico [MTV]. O que me irritou foi a quebra de palavra em muitas situações", diz.
"Todo mundo estava acomodado, tinha um nome no mercado, uma certa estabilidade... A música é uma profissão, mas isso só até a página 2. Por que na hora que uma banda fica como uma repartição pública, onde cada um está fazendo sua parte, com inveja do outro, tá tudo errado", afirma.
"Se eu pudesse voltar no tempo, quem sabe eu não tratasse as coisas de uma maneira mais institucional e chamasse um advogado antes de discutir, e colocasse uma liminar dizendo que estavam suspensas as atividades da empresa Ira!. É como já disseram: uma banda que tem o nome Ira! talvez não pudesse acabar de outra maneira", conforma-se.
"Às vezes, você tenta acabar um namoro ou um casamento de uma maneira consensual, mas não dá e tem que ser na briga mesmo. No prato que voa na cabeça do outro. Não estou falando de uma agressão, mas às vezes tem que haver uma grande briga, uma grande baixaria, pra que a coisa acabe", diz.
Já a situação com o irmão parece estar longe de se resolver. "Estávamos no caminho de uma trégua jurídica através de pessoas intermediárias, mas foi tudo por terra. Que eu saiba, ele não está mais nem trabalhando com música. Olha, eu vou te falar uma coisa. Irmão e parente são as pessoas que a gente escolhe e não necessariamente aquelas que a gente nasce", diz.
"Fico tranquilo por que tenho advogados. Não são muito bons, mas são extremamente éticos e gostam da minha pessoa, não do dinheiro que eu posso proporcionar", completa.
SHOW NASI
ONDE: Comitê Club (r. Augusta, 609, tel.: 11 3237-3068)
QUANDO: 16 de julho, à 0h
QUANTO: R$ 30
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