Jornal da Tarde
Cartola só estudou até o primário, viveu na pobreza, no Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, e trabalhou, entre outras coisas, como servente de pedreiro. Nada disso o impediu de entrar para a história da música brasileira como um de seus maiores expoentes, autor de versos tão geniais quanto sublimes de As Rosas Não Falam.
Amanhã, completa-se 30 anos da morte do compositor que até hoje continua inspirando músicos das mais diferentes vertentes, desde o rock até o mangue-beat, passando, é claro, pelo samba. Otto, Paulo Miklos (do Titãs) e Max de Castro (filho de Wilson Simonal): donos de estilos tão diferentes, todos eles se dizem influenciados pela obra de Cartola e destacam a importância do sambista para a cultura nacional.
“Cartola faz parte dos arquitetos da música brasileira. Ele ajudou a fazer a ligação do morro com o asfalto”, diz Max de Castro, que compôs junto com o ex-baterista do O Rappa, Marcelo Yuka, a música Os Óculos Escuros de Cartola, em homenagem ao sambista e a todos os grandes compositores da música brasileira.
Batizado de Agenor de Oliveira, o músico recebeu o apelido de Cartola porque na época em que trabalhava como pedreiro, usava chapéu-coco para evitar que caísse cimento no cabelo. O apelido, no entanto, ficou. Até porque o sambista, por mais pobre que fosse, sempre foi reconhecido como uma pessoa que se trajava muito bem.
“Tenho uma recordação de Cartola como um homem bem vestido, sempre de óculos escuros e fumando um cigarro”, diz Max de Castro. Os óculos, Cartola usava para disfarçar uma deformação que tinha no nariz. “Tinha 12 anos quando comecei a ouvir Cartola e Nelson Cavaquinho. Eles são meus pais inspiradores”, lembra o pernambucano Otto. “É uma poesia num grau indiscutível”, completa.
Para Otto, as músicas favoritas de Cartola são O Mundo É Um Moinho, Acontece e Alvorada. “Elas são fenomenais. Até fiz uma música em homenagem a Cartola, batizada de Café Preto”, revela.
Pobreza
Cartola viveu boa parte da vida na pobreza e sua história é digna de filme. Em 1928, aos 20 anos, fundou junto com Carlos Cachaça e Zé Espinguela, a Estação Primeira de Mangueira, uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro. Na década de 50, compôs para alguns músicos, mas nunca ganhou dinheiro.
Passou a beber e quase ficou viciado. Nesse período, passou a trabalhar como vigia e lavador de carros, até ser redescoberto pelo jornalista Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta). Nessa época, o músico era dado como desaparecido pelos amigos.
A descoberta de Porto colocou Cartola de volta sob os holofotes. Alguns anos depois, em parceria com sua segunda mulher, a Dona Zica, fundou o restaurante Zicartola, que virou um marco na história do samba. O local se tornou ponto de encontro de sambistas e compositores.
A relativa boa vida só viria na década de 70, quando gravou seu primeiro disco, Cartola, em 1974. “Eu adoro Cartola”, admite o músico Paulo Miklos, do Titãs. Filho de mãe carioca e pai paulista, ele lembra que, quando criança, costumava passar suas férias no Rio de Janeiro. Época em que entrou em contato com o samba e com o carnaval de rua – o que era diferente de São Paulo, pois aqui a folia ficava nos clubes.
As lembranças dos festivais na TV também são marcantes em sua memória. Das pessoas torcendo, se manifestando passionalmente em relação ao melhor artista. “Foi quando meus pais começaram a me dar os primeiros discos”, conta o músico.
Miklos tinha uns 8 anos quando descobriu a música popular brasileira e, junto com ela, a obra de Cartola. “Lembro muito dele na interpretação de Chico Buarque, Maria Bethânia. Em As Rosas não Falam, Cazuza botou seu coração ao cantá-la”, garante.
Mas foi no samba, principalmente, que Cartola arrebanhou mais seguidores. Nomes como Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Dudu Nobre e Martinho da Vila praticamente cresceram ouvindo o músico. “Cartola é pop. Suas letras sobreviveram ao tempo. É diferente de Noel Rosa, por exemplo, que tem letras mais datadas. Acho que é por isso que Cartola continua vivo e influenciando gerações”, diz Max de Castro.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
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