quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

JT - Abre-alas que eu quero tocar

Jornal da Tarde

Há sempre uma boa banda de abertura à frente de um grande show. E ai se não houver
A missão é espinhosa. Requer sangue quente, coragem, presença de palco e estratégia. São 30 minutos para chegar, tocar e sentir a hostilidade em forma de tomates arremessados na cabeça ou a consagração nos gritos de bis. À frente, jovens babando pelo show do ídolo que ainda não apareceu e pelo qual eles pagaram caro. Ao lado, um técnico de som disposto a guardar os melhores graves, médios e agudos para a atração principal. Vida de banda de abertura é assim. E agora, com shows internacionais em altíssima temporada, elas se proliferam. Vão dos acordes ainda pouco expostos do cuiabano Vanguart, abrindo as porteiras para o Coldplay, à tormenta Ivete Sangalo, que fará esquenta para Beyoncé.
O histórico mostra que bandas principais não gostam de serem ofuscadas por atrações de abertura. Hélio Flanders, vocalista do Vanguart, sabe bem o que é ser hostilizado pelo público em sua própria cidade, Cuiabá. “Já abrimos para os Racionais em 2008. Foi casca grossa. O público que estava lá era deles. Começaram a xingar, gritar, pediam pra gente sair do palco”, diz. Agora escalados para as preliminares do Coldplay, estão mais confiantes. “Temos 40 minutos para mostrar nosso som, não dá para inventar. Será uma grande oportunidade.”
Os maiores ruídos acontecem quando as atrações não têm semelhanças de estilos. Carlinhos Brown sofreu xingamentos e virou alvo de latas, lanches e garrafas no Rock in Rio de 2001. O erro foi da produção, que escalou o hiperativo axeman na mesma noite em que se apresentariam Guns’n’ Roses, Oasis e Papa Roach.
Os escoceses do Franz Ferdinand, que tocarão no País em março, levam a questão tão a sério que a produtora do grupo, Day 1, abriu enquete em seu site para deixar que o público eleja quem fará o debute. Quem está na frente por enquanto é o Ecos Falsos. “Acho que fomos mais votados justamente por termos semelhanças com o Franz Ferdinand”, diz o vocalista Gustavo. “Banda de abertura sempre entra em desvantagem. Não temos ilusão de que alguém estará lá para nos ver. Por isso não dá para se importar se o som vai ser mais baixo ou se não poderemos usar todos os recursos de palco. Estamos preparados até para ouvir gritos de ‘toca Raulllll’.”
Quem abre o jogo é Pena Schmidt, superintendente do Auditório Ibirapuera. Ele afirma que não existe democracia no palco. “Banda de abertura tem espaço restrito”, diz o produtor que já trabalhou com grupos como Mutantes, Ira! e Camisa de Vênus. “É lógico que o som do primeiro show é mais baixo. Existe uma hierarquia nessa hora. A banda, nesse caso, tem uma função utilitária de propiciar uma melhor espera para o show principal.” Alexandre Nogueira, produtor do Via Funchal, tem suas estratégias. “Em uma cidade como São Paulo, onde o trânsito é agressivo, a banda de abertura ajuda a amenizar o atraso”, diz.
A função dos produtores é também administrar a guerrilha de egos que se coloca quando os artistas da noite são pesos pesados. Boas amostras devem acontecer nos shows de Beyoncé, com Ivete Sangalo no início; e do Metallica, com o Sepultura à frente. Nos dois casos, a atração secundária não é apresentada como ‘banda de abertura’, mas como artista que dividirá a noite com os gringos. Pura cascata. Banda de abertura, ainda que tenha peso, só está ali para abrir. E sumir.

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