Jornal da Tarde
Show com cara de Cirque du Soleil encantou a pista VIP. Já para os “pobres” da arquibancada.
O roteiro pago para se transformar em um filme romântico quase virou uma trama sociopolítica. As 65 mil pessoas que se dirigiram ao Estádio do Morumbi para assistir aos ingleses do Coldplay na noite de anteontem tiveram diferentes versões da mesma obra. Tudo porque o som variou de um lugar para o outro. Para a pista VIP, tudo funcionou - quase - 100%
Os R$ 500 tirados do bolso para estar próximo a Chris Martin e cia valeram o investimento. O som estava perfeito, a visão dos músicos era excepcional. O único senão foi o corredor aberto de forma truculenta pelos seguranças no momento em que a banda subiria no pequeno palco montado na pista “normal”. Os músicos passariam por dele e tocariam Shiver e a nova Don Quixote, entre outras, de maneira acústica. Irmãos foram separados, namorados ficaram cada um de seu lado do cordão, como se um deles tivesse perdido um hipotético metrô lotado.
Pior para quem estava na arquibancada especial (R$ 200), que de especial não tinha nada. Na hora do pequeno palco entrar no roteiro, ninguém escutou nem viu nada. Namorados preferiram namorar a ouvir o som abafado que chegava minguado. Os fãs não conseguiam interagir. Viam as imagens em alta definição dos três telões - um no fundo do palco e mais um de cada lado dele - e imaginavam como seria estar lá embaixo. Algumas pessoas decidiram sair na metade da apresentação bufando: “Nunca presenciei nada mais patético. Não ouço nada”.
Já quem pagou R$ 250 pela pista achou que, se não poderia estar próximo ao palco (como os abonados da pista VIP), poderia ouvir e ver muito bem pelo telão. Ledo engano. Coros de “aumenta o som, aumenta o som” corriam pelo cordão de isolamento entre “ricos” e “pobres”. Era possível falar no celular normalmente e conversar com a pessoa ao lado como se nada - muito menos um show - estivesse acontecendo ao redor.
Teatro competente
O Coldplay entrou às 21h45 no palco, precedido por U2 - influência escancarada -, hip hop e música clássica. Tocou o mesmo repertório do show do Rio de Janeiro, desta vez sem a chuva que açoitou todo o concerto carioca.
As músicas mais aplaudidas eram as baladas: Fix You, In My Place, The Scientist e Yellow, que ganhou dezenas de balões amarelos coloridos. Antes do show, vale lembrar, balões pretos, vermelhos e brancos foram distribuídos para a plateia. Colaboraram no parabéns para o aniversariante da noite, o vocalista Chris Martin, que completou 33 anos, e retrucou: “Não há melhor jeito de passar seu aniversário do que ouvindo 60 mil brasileiros cantando ‘parabéns a você’”.
Em Lovers in Japan, milhares de borboletas de papel foram atiradas ao público, que já estava embasbacado com as dancinhas frenéticas de Martin, que se jogou ainda mais com o efeito com cara de Cirque Du Soleil.
Fogos de artifício fecharam a apresentação de 1h45 e fizeram Martin afirmar: “Todo mundo ama tocar no Brasil, e nós sabemos por quê”. Só é preciso avisar isso para o público da arquibancada.
quinta-feira, 4 de março de 2010
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