terça-feira, 6 de abril de 2010

Folha - Marcelo Camelo prepara segundo álbum solo, que deve ser lançado neste ano

da Folha de S.Paulo

Sediado em sobrado antigo de Pinheiros, o estúdio El Rocha não é exatamente luxuoso. Ao contrário. Suas instalações simplíssimas não têm nada a ver com a fantasia modernosa e high-tec que nós, ouvintes, temos em mente quando botamos um CD para tocar. À primeira vista, o espaço mais parece uma oficina mecânica do que um estúdio de gravação.
É lá que Marcelo Camelo, 32, passa as tardes desde meados de janeiro. Está registrando o segundo álbum fora do Los Hermanos, banda que o projetou como, se não o maior, um dos grandes compositores brasileiros desta geração. O trabalho deve chegar ao público no segundo semestre.
Camelo sai do apartamento alugado em que mora, caminha pouco mais de um quarteirão e já está no estúdio. Costuma chegar lá por volta das 14h, depois de almoçar em algum dos restaurantes igualmente simples das redondezas.
Ao mesmo tempo, vão chegando os meninos do Hurtmold --banda paulistana que o acompanhou em quatro faixas de "Sou" (2008), o disco anterior, e que estará em todas deste, ainda sem nome definido.
A repetição da base instrumental não deve significar, diz Camelo, uma reprodução da estética sonora de "Sou". Para ele, a maneira como os músicos atuam agora é outra. "O que o Hurtmold faz naturalmente é se fundir em uma massa sonora que se comporta como uma coisa única e muito particular", diz. "Neste [novo] disco, eu queria que as coisas soassem mais à parte uma da outra."
E devem soar. Para tanto, Camelo está gravando os instrumentos em sessões separadas. Investiga com cada músico, por exemplo, de qual guitarra vão conseguir arrancar o timbre que procuram. Depois, afina ele mesmo o instrumento, ensina os acordes, canta os arranjos -no geral, todos um tanto mais solares do que os de "Sou".
"Desde que vim morar em São Paulo, minha turma são eles [do Hurtmold]. E as namoradas deles, e os amigos deles, e os amigos dos amigos deles", diz. "Percebo uma contradição grande entre o tamanho da cidade e o jeito dos meus amigos daqui. São calmos, ficam conversando sem hora. O Vinicius [de Moraes] disse que gostava do Rio porque lá ele tinha muitos amigos filósofos, e que gostava de São Paulo porque aqui tinha muitos amigos amigos. É um pouco isso, mesmo."
A mudança de cidade, ele diz, é fator fundamental na transformação estética do trabalho. A música é, sempre, uma resposta à paisagem urbana, "uma reação ao que você está vivendo", diz. "Para te colocar num estado de espírito em que você não está. Não existe contracultura. Se a cultura não está indo contra, não é cultura --é só uma repetição do mesmo."
Camelo mantém ativado o apartamento carioca, mas passa poucos dias nele. A principal entre as razões, não há dúvida, é a namorada, Mallu Magalhães. Eles se telefonam o tempo todo, e Camelo para qualquer arranjo no meio para atender. A voz fica mais macia antes do "alô".
Talvez Mallu cante uma faixa do novo CD. Mesmo que não faça, sua presença percorre todo o trabalho. Camelo afirma que foi dela, principalmente, que absorveu o método de composição que usa desde "Sou". As letras não são mais rebuscadas, as palavras não são escolhidas verso a verso.
É o que ele chama de "impor menos o pensamento", de "ir cantando distraído de si mesmo e se surpreender com as coisas que surgem". "As pessoas que mexem com imagem sabem muito disso: quando se filma uma pessoa distraída de si, ela está sempre mais bonita."
A Folha pediu ao compositor uma das novas letras para publicar com esta reportagem. Ele preferiu não incluir nenhuma. Em primeiro lugar porque, graças ao novo método, elas vão se modificando cada vez que ele as retoma. Depois, porque "as letras vão melhor com as melodias, não são poesias para serem lidas e sim cantadas. Quando eu tento escrever alguma coisa fica muito ruim, é linguagem oral".
Quem diz isso é o mesmo cara que, anos atrás, conquistou um exército de fãs à custa de letras tão consistentes que se manteriam de pé mesmo no silêncio absoluto de uma página de caderno. Ele diz que esse caminho ao avesso é tentativa de transformar a música. Torná-la mais rica porque saiu do lugar seguro onde estava.
"Em vez de me aprofundar num discurso, fico tentando ser contraditório e apontar para outros lugares", diz. "Fico dialogando com a coisa anterior --e em oposição a ela, quase. Como se para dar o passo seguinte eu precisasse opor o movimento do anterior. Que nem andar, em que você opõe um pé ao outro. Se ficar sempre com o mesmo pé, você para de andar."

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