quinta-feira, 26 de agosto de 2010

JT - Joyce relança ‘Feminina’ 30 anos depois

Jornal da Tarde

Aos 19 anos, a cantora e compositora carioca Joyce, então novata de tudo na música brasileira, causou alvoroço no 2º Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, em 1967, ao classificar sua ‘Me Disseram’. Na época, uma mulher, sobretudo jovem como ela, cantando algo como “me disseram que meu homem não me ama” era ousado demais. Era uma garota dando voz a uma música sobre a alma feminina na primeira pessoa. “Chegaram a afirmar que minha postura era muito feminista, sem eu saber o que era isso”, lembra ela, hoje aos 62 anos, em entrevista ao JT.
Em 1980, treze anos depois do Festival de 67, Joyce acabava de retornar de um período de quatro anos longe das atividades musicais, para se dedicar às filhas, quando lançou o álbum Feminina, pela EMI-Odeon. Com esse trabalho, a compositora voltava a flertar com um universo que lhe era tão íntimo, confortável e essencialmente feminino.
Considerado um marco na sua carreira, o disco reuniu faixas que abasteceram o repertório de muitos outros intérpretes, como Elis Regina, Milton Nascimento, Nana Caymmi, Maria Bethânia e Quarteto em Cy, para citar alguns exemplos. E foi de onde saiu a tocante ‘Clareana’ – composta em parceria com Maurício Maestro, em homenagem às filhas Clara e Ana –, que fora classificada no Festival MPB-80 e projetou a cantora nacionalmente.
Agora, 30 anos depois, ‘Feminina’ é lançado pela primeira vez em CD. Para esta reedição comemorativa, Joyce escreveu um texto para o encarte, relembrando tal momento tão importante de sua vida e trajetória profissional. Nesta entrevista exclusiva, ela fala sobre a repercussão de Me Disseram, a importância do disco ‘Feminina’ e o atual mercado de compositoras no Brasil.

Como surgiu a ideia de relançar ‘Feminina’, após 30 anos?

Foi algo muito espontâneo. Já vinham ocorrendo algumas manifestações. Um blog falou do álbum no Dia Internacional da Mulher. Apareceram notinhas na imprensa lembrando esses 30 anos. Foi um disco que ficou no imaginário das pessoas. É a primeira vez que sai em CD dessa forma. As músicas dele já haviam saído numa série que existiu no Brasil no início dos anos 90, chamada 2 em 1. Era praticamente uma compilação de músicas minhas. Mas, no exterior, em locais como Londres e Tóquio, nunca saiu de catálogo.

Você o consdera um marco na sua carreira?
Foi muito importante, embora não tenha sido meu primeiro disco. Mas foi meu projeto mais autoral, com letras minhas. Tive controle total sobre ele. Fiz os arranjos, com tudo baseado no violão. Além disso, quase todas as músicas são sucessos e foram cantadas por outras pessoas. Elis Regina gravou Essa Mulher, revivida depois pela filha Maria Rita. Bethânia gravou Da Cor Brasileira. A canção Mistérios é uma das mais gravadas – até pela Annie Lennox (cantora escocesa, a voz do Eurythmics). A música Feminina foi tema do seriado Malu Mulher, da Globo. Foi uma coisa completamente surreal.

E ‘Aldeia de Ogum’ parou nas pistas europeias, não foi?
Sim. Acho que o primeiro a tocar foi o DJ Gilles Peterson, mas sem remix. Foi da forma como havia sido gravada. Depois, outros DJs começaram a tocá-la também, mas já remixada. Era início dos anos 90. Em 93, eu já havia feito shows no exterior, mas estava me apresentando pela primeira vez em Londres. De repente, vi que ganhei um público muito jovem. Levei um susto. Tinha uma garotada de cabelo verde

Suas filhas Clara e Ana participaram da faixa ‘Clareana’ e hoje são cantoras. Foi no disco que elas estrearam?
Não. Elas sempre cantaram. A primeira gravação que fizeram foi com Egberto Gismonti, em Dança das Cabeças.

Qual seu olhar sobre este álbum, 30 anos depois?
Ele pode ser avaliado sob vários primas. Pelo prisma conceitual, fala muito sob o ponto de vista feminino. Eu já fazia isso desde meu primeiro disco, em 1968. O que era algo chocante naquela época de Ditadura Militar. Em 80, houve um certo boom de cantoras novas. Muitas pessoas me tomavam como uma dessas novas intérpretes, por eu ter ficado um tempo afastada. Havia, ainda, uma predominância lésbica entre as cantoras nessa época e, quando fiz o Feminina, acharam que era provocação (risos)

Por que você havia dado um tempo antes de gravar ‘Feminina’?
Fiquei quatro anos afastada, por causa das minhas filhas. Mas gravei dois discos fora do Brasil, o Passarinho Urbano, em 76, na Itália, e Natureza, em 77, nos Estados Unidos. Mas este último nunca chegou a ser lançado, por alguns problemas contratuais, entre outros motivos.

Por que acha que ‘Me Disseram’, defendida no Festival da Canção, de 67, causou impacto?
O que eu fiz ali foi dar um passo maior do que a perna. As letras tinham esse tom que a bossa nova não usava. Eram ousadas. O texto no feminino, naquele momento, não era apropriado para uma mulher, principalmente com 19 anos. Eu não tinha referências de compositoras brasileiras nessa linha. As músicas de Dolores Duran e Maysa tinham letras neutras, que não usavam a primeira pessoa no seu gênero. Realmente, eu não via problema em cantar no feminino, sendo eu mulher, como já havia na música francesa e na americana. Acho que Não Muda Não, que eu fiz aos 18 anos, poderia ser bem mais impactante, pois fala de uma mulher que não sonha em ter um marido, apenas quer aquele homem. Mas como essa composição não participou de festival, não teve repercussão.

Como era o mercado de compositoras naquela época?
Começaram a aparecer Angela Ro Ro, Fátima Guedes. Havia a Sueli Costa, mas ela era compositora de música, não de letra. Outra que é contemporânea minha, mas que só depois começou a escrever na primeira pessoa do feminino, é a Rita Lee.

Por que você acha que a mulher demorou tanto para se mostrar como autora?
Eu dizia que não era feminista, mas comecei a ser. No dia em que solucionarem o problema racial, a diferença entre os sexos vai continuar. Somos a última questão a ser resolvida.

Existe atualmente uma nova e forte geração de compositoras. Você as conhece?
Hoje em dia, está chovendo cantoras e compositoras. Sem querer citar nomes e já citando, conheço a Giana Viscardi.

Na sua opinião, que compositor homem consegue captar a alma da mulher, ao escrever na primeira pessoa do feminino?
Chico Buarque é uma unanimidade. Acho que ele tem um encosto, baixa uma santa nele (risos).

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