quarta-feira, 29 de setembro de 2010

JT - D2 dá um passo enorme em direção ao samba

Jornal da Tarde


No quintal da sua casa, no Rio de Janeiro, ele brincava com os versos malandros de Bezerra da Silva. Na adolescência, colocava tal malandragem em prática, perambulando pela noite carioca. Hoje, aos 42 anos, ele a canta à vontade, como se estivesse em casa. Como se o samba fosse a sua praia. E não é que é? Ou não? A verdade é que nem ele sabe ao certo.
Marcelo D2, o rapper ou o sambista, se encontra numa linha tênue entre as duas vertentes da música. Desde que entrou de cabeça em sua carreira solo, após o fim do Planet Hemp, em 2001, o músico foi se afastando mais e mais do verso falado. E se dirigia a passos largos em direção ao samba. Por isso tornou-se ainda mais famoso e colecionou elogios. Agora, verso só cantado.
Quando Bezerra, o mentor e centro de toda dessa mudança morreu, em 2005, D2 já estava em busca da batida perfeita. A mistura de rap com samba havia começado oficialmente dois anos antes, com o disco ‘À Procura da Batida Perfeita’. A influencia do mestre estava lá. No ano seguinte, o ‘Acústico MTV’ foi lançado. Quando recebeu a notícia de que Bezerra da Silva havia morrido, na manhã de 17 de janeiro, pegou o primeiro voo da ponte aérea São Paulo-Rio de Janeiro. Ao chegar ao Teatro João Caetano, no centro do Rio, encontrou Zeca Pagodinho, sentado, com cerveja na mão. “Em enterro de sambista, se comemora”, disse o colega. Aquele que já não era mais tão rapper assim concordou e comemorou.
Ali, entre uma história e outra sobre o “repórter do morro”, como Bezerra era chamado, veio a ideia de fazer uma homenagem a ele. “Fiquei com isso martelando na minha cabeça. Sabe qual é?”. Só neste ano, o ritmo acelerado do produtor Leandro Sapucahy animou Marcelo D2. Em maio, eles começaram a se debruçar nos vinis de Bezerra que o rapper/sambista tinha em casa. “Primeiro, selecionamos umas 50 músicas. Depois, reduzimos até chegar às 14 que colocamos no disco”, explica ele.
O CD ‘Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva’ compila as grandes músicas do sambista. ‘Se Não Fosse o Samba’, ‘Quem Usa Antena é Televisão’ e ‘Minha Sogra Parece Sapatão’ estão entre as escolhidas. O time que o acompanha também é de primeira: Jota Moraes nos arranjos, Carlinhos Sete Cordas, Jerominho Fernandes e Marcos Arcanjo nos violões, além de Miudinho e Leandro Sapucahy em ação nos pandeiros.
As canções ‘Malandro Rife’ e ‘Malandragem Dá Um Tempo’ parecem ter sido feitas para a voz de D2. E é voz, mesmo. O disco é inteiramente cantado pelo rapper. Versos “Malandro é malandro mesmo / E o otário é otário mesmo” e “Vou apertar, mas não vou acender agora” saem tão naturais que até parecem ter sido compostos pelo próprio D2.
Para ele, cantar Bezerra é natural. Sua voz não é de cantor, é claro, nem tem porte para isso. Mas o samba soa familiar. “Achei que seria mais difícil cantar. Mas acabou sendo fácil”, diz. “Acho que é porque a obra dele sempre esteve impregnada em mim”. D2 se lembra que, desde o começo da carreira, compunha seus versos tentando imitar a forma como Bezerra fazia samba: de um jeito despojado, falando das belezas e tristezas do morro.
Mas a conexão com o mestre foi ainda mais forte. Em 1993, num vendaval de mudanças, quando o Planet Hemp ainda engatinhava, Marcelo D2 perdeu o pai, e conheceu Bezerra da Silva. Logo se tornaram grandes amigos. E parceiros até o fim. “Tenho a lhe dizer que amo a música e sou muito grato por tudo o que ela tem feito por mim. E isso se estende a você, Bezerra/Um ídolo e grande amigo que foi influência e inspiração”, versa D2, na última faixa do disco, ‘Caro Amigo Bezerra’. Como se ainda precisasse.

LANÇAMENTO
Marcelo D2
‘Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva’
EMI Music
Preço: R$ 20

Nenhum comentário:

Postar um comentário