Jornal da Tarde
O último álbum lançado foi em francês, mas a voz da americana de Nova Jersey que chega do outro lado da linha fala português. E com uma desenvoltura invejável. A cantora Stacey Kent, de 44 anos, é assim, uma apaixonada por outros idiomas. Principalmente pelas diferentes formas encontradas para expressar os sentimentos, cada um com sua peculiaridade.
“Cada língua tem a sua magia”, diz a artista, que vem ao Brasil pela segunda vez, com uma turnê que passará por São Paulo (hoje), Itajaí, em Santa Catarina (amanhã), Porto Alegre (14) e Rio de Janeiro (16).
Sua primeira passagem no País, em 2008, só fez a cantora sentir mais vontade de aprender a língua de Fernando Pessoa e Machado de Assis, suas referências literárias na língua portuguesa. O Livro do Desassossego e Memórias Póstumas de Brás Cubas foram recentemente lidos, mas, para ter total compreensão, ela precisou recorrer a versões em inglês dos livros, que carregava sempre consigo. Nada que impeça de seguir firme em sua incursão pelo idioma.
Quando cantou no Tim Festival, naquele ano de 2008, a dona de uma das mais saborosas e delicadas vozes do jazz deixou por aqui uma promessa: iria aprender a falar português. Isso já está conseguindo. Mas, fã confessa de João Gilberto e Tom Jobim, ela também quer gravar músicas em português. Num futuro próximo. “Estou indo com calma”, diz a cantora, formada em Literatura Comparada.
Em seu último disco, Raconte-Moi, ela cantou apenas em francês, idioma aprendido ainda na infância. Lá, há uma surpreendente versão de Águas de Março, de Tom Jobim, intitulada Les Eaux de Mars. É um caminho quase natural enveredar pela música de língua portuguesa. Um caminho sem volta, até, percebe ela. A cantora e o marido, Jim Tomlinson, saxofonista e produtor de seus discos, estão, agora, procurando um lugar para morar em Lisboa.
Stacey Kent falou ao JT de Vermont, estado americano ao norte de Nova York.
Lá, ela fazia pela segunda vez um curso intensivo de sete semanas, no qual o único idioma que poderia ser falado era o português. E assim foi feito.
Podemos falar em português, mesmo, sem problemas?
Sim, claro. Só peço para que você fale devagar, para que eu possa entender tudo.
Por mim tudo bem. Se tiver alguma dúvida, pode falar em inglês.
Está bem. Se eu falar alguma coisa errada, por favor, me corrija.
Combinado. Agora, então, vamos ao início de isso tudo: por que resolveu aprender a falar em português?
Era uma coisa que sempre quis fazer na minha vida. Quando era mais nova, estudava outras línguas, como francês, italiano e alemão, mas não tive a oportunidade de aprender português. Na minha universidade não havia o curso.
Mas qual é a importância da língua portuguesa para você?
É uma língua importante no mundo da literatura, da música e da poesia. Foi uma decisão completamente pessoal.
Quando decidiu estudar, então?
Foi no ano passado. Estamos (ela e o marido Jim Tomlinson) numa escola aqui em Vermont, na qual podemos aprender uma língua em sete semanas.
E como funciona?
Só podemos falar português. Nenhuma palavra em inglês. Além das aulas, moramos em alojamentos com os professores. Fizemos no ano passado, e estou aqui agora.
E o que você tem estudado sobre cultura brasileira?
Estou lendo muitas coisas. São complicadas, mas estou tentando, sabe? Li contos de Luis Fernando Veríssimo, Clarice Lispector, Machado de Assis.
Poesia em português também?
Sim, a poesia é muito importante na minha vida, na minha música. Estou lendo Fernando Pessoa e lendo as canções de Vinicius de Moraes e de Caetano Veloso.
Está se preparando, então, para cantar alguma música em português aqui no Brasil?
Acho que sim. Isso vai acontecer, mas não quero apressar nada. Vou devagar. Não quero cantar só para parecer bonitinha, sabe? Não quero que falem: “Nossa, que bonitinho, ela fala português”. Quero ser capaz de cantar o que o meu coração e minha alma estão dizendo. Poder me expressar por completo, sem pensar nas palavras, nos textos, na gramática… Tem de ser algo automático, entende?
Mas você canta em francês. É mais fácil para você?
Sim, é uma coisa natural para mim. Uma situação totalmente diferente.
Seu último disco, inclusive, é totalmente em francês.
Eu sempre soube que faria esse álbum um dia. A música francesa faz parte da minha vida. Então foi natural. Se não fosse ela, minha vida musical seria muito menos rica. Não fiz esse disco pensando em trabalho, ou na minha carreira, mas sim no público. Porque são canções que podem ser interpretadas em inglês, mas não funcionariam igual.
E nesse mesmo disco você cantou ‘Águas de Março’, de Tom Jobim, numa versão em francês. Por que? Como é a sua relação com a música?
Conheço essa canção quase desde sempre. Minha mãe adorava. Colocava para tocar em casa com frequência. Em várias versões, na de Elis Regina e em outros idiomas. Ou seja, eu já era exposta à língua portuguesa antes mesmo de me tornar cantora. E não conseguia compreender perfeitamente. Quando a gente canta, consegue quase compreender, porque a alma está lá. Essa música fala da vida e tudo que ela significa.
Cantar músicas em português é um caminho natural?
Já estou cantando e escrevendo músicas também. Temos o auxilio de um professor nosso, que é português, chamado António Ladeira. É muito interessante!
Você veio ao Brasil em 2008. Fez a promessa de que aprenderia a falar português. E agora está de volta. Está animada?
Sim! Tocamos no Tim Festival há dois anos. Foi ótimo. Passei por Vitória, São Paulo, Rio de Janeiro. Mal posso esperar para voltar!
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
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