quarta-feira, 22 de setembro de 2010

JT - Um bamba de família

Jornal da Tarde


“Traz um chope para mim e outro pro garoto aqui. Ah, sim, traz também uns petiscos”, diz Zeca Pagodinho ao subir para o segundo andar de um restaurante na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O dia estava quente: 31 graus. Zeca vestia uma camisa preta, com calça jeans. Nada colorido. Conforme subia as escadas, o sambista desanimava. Cada passo o afastava do neto Noah, de 7 meses, deixado com a família no andar de baixo.
Sentado do outro lado da mesa, ouvindo um jazz, Zeca não parecia o Zeca. O copo de bebida suando à sua frente quase não é tocado. Era quarta-feira da semana passada. O dia do lançamento do seu novo disco, ‘Vida da Minha Vida’. No mesmo dia, o cantor e compositor perdera um amigo de infância, o sambista Deni de Lima, vítima de um AVC – ele estava internado desde o início deste mês.
O bamba perdeu o compasso do samba. Perdeu o foco. Olhava para os lados, desinteressado, procurando algo que o lembrasse a saudosa Xerém, de onde veio e para onde costuma ir para rever os velhos amigos. Falar do disco o animava, mas logo ele recebia ligações de “cumpadis” falando sobre o enterro do parceiro de samba, marcado para o mesmo dia – durante o papo com a reportagem do ‘JT’, Zeca recebeu dois telefonemas assim.
Com um título quase autobiográfico, o novo disco – o 27º da carreira de Zeca Pagodinho – é melancólico. No álbum, ele canta sobre a velhice (em ‘Orgulho do Vovô’), solidão (‘Casa Vazia’) e amores perdidos (‘Dolores ‘e ‘Suas Desilusões’). É o reflexo de um bamba que, aos 51 anos, já não vive na boemia, foi internado com princípio de pneumonia em 2009 e tem medo de ficar sozinho em casa.
No disco, a sua voz está mais rouca. Tem medo de perdê-la?
É uma das minhas preocupações. Vivo da minha voz. Então, tenho de me cuidar. Mas não sou do tipo ‘preocupaaaado’ (ele fala gesticulando com as mãos). Eu vivo a vida. Mas já não fumo mais, evito falar alto no dia do show. Coisas desse tipo. Nada mais.
Largou o cigarro por causa do princípio de pneumonia que teve no ano passado?
Na verdade, muita coisa me fez parar. Agora, estou com criança nova em casa ‘(Noah, o neto de sete meses)’. É chato, né? Ficar fumando. Hoje é careta, não se vê mais ninguém fumando. E dá trabalho, levantar para fumar. Eu tinha de sair da cama, durante a madrugada, num frio do cacete, para fumar. Não dá, né? Muito ruim. Fica um cheiro péssimo na mão. Sem falar que o dia seguinte sem o cigarro é bem melhor. Pode beber bastante e não fumar, que não tem ressaca. A ressaca do cigarro é a pior de todas.
Por falar em cerveja, aquela história de beber para ficar com a voz rouca é verdade?
‘(risos)’ É uma brincadeira, né? Tem uns que tomam gengibre. Eu, que já tenho a voz rouca, disse uma vez que tomava cerveja para deixar a voz assim. Mas pessoa nenhuma, em sã consciência, faz um negócio desses.
Aos 51 anos, você enfrenta de novo a rotina de gravar um disco, dar entrevistas, fazer turnê. Não está cansado? O que dá mais trabalho. Ensaiar?
Cansa sim, mas temos de fazer isso. Faz parte da divulgação do disco. Ensaiar é bom porque vai todo mundo. Tem festa. Mas é sempre assim: até em velório a gente leva uma caixa de cerveja, uma mortadela, um samba.
Mas agora vai entrar em turnê. Você suporta bem ficar muito tempo longe da família?
Isso é um pouco complicado. Eu sou muito apegado aos meus filhos, à minha casa. Gosto de dormir na minha cama, ao lado da minha mulher ‘(Mônica, casada com Zeca há 24 anos)’.
E como mata a saudade?
Rapaz, eu ligo toda hora.
O pessoal não reclama, não?
Ah, reclamam, sim! ‘(risos)’
Quanto tempo você aguenta ficar longe deles?
Uns três dias.
Isso se reflete no disco? Afinal, na única música de sua autoria, ‘Orgulho do Vovô’, você canta que já foi bom filho, bom pai, e agora quer ser um bom avô. Sua prioridade é a família?
Minha prioridade sempre foi a família. Sempre. Eu tenho a música. Quando digo família, estou falando dos meus amigos também. As pessoas que trabalham comigo. Que convivem comigo. Essa é a minha família.
Falando em seus amigos do bloco Cacique de Ramos, eles sempre são mais críticos quando falam dos novos sambistas. Do samba paulista, por exemplo, Beth Carvalho já disse ser “Jovem Guarda de Tantam”. Você é mais apaziguador. Por que?
E capoeira só existe na Bahia? Aqui no Rio de Janeiro também tem muito samba ruim. ‘(A entrevista é interrompida pela ligação’ ‘de um amigo que pergunta se Zeca vai ao enterro de Deni )’. Então, voltando ao assunto… tem vários estilos de samba. Tá legal, tá maneiro?. Tá roubando alguém? Se não gostar, não compra o disco. Meus filhos gostam de rock, como o som do Marcelo Camelo ‘(ex-integrante do Los Hermanos)’. Não vou dizer que ouço todo o dia, mas gosto.
Marcelo Camelo? Por essa eu não esperava. Tem outros ídolos fora do samba?
É, meu filho gosta do Los Hermanos. Eu tenho uma porrada de ídolos, como o João Bosco, o Fagner.. Não pode ter barreira. Música não tem fronteira. Ela tem de ser liberdade, cara ‘(risos)’.
Liberdade que deixa colocar até uma harpa num samba (em ‘Orgulho do Vovô’)?
Isso é coisa do Rildo Hora ‘(produtor)’. Ele é genial, caprichoso. Todo mundo que trabalha com a gente é caprichoso. Por isso que eu tenho que me policiar, sabe? Não ficar perdendo noite e chegar na gravação mal, sem cantar direito, de mau humor. Todo mundo da minha equipe trabalha direito. Não posso ficar assim. Já fui maluco. Hoje em dia, aos 51 anos, procuro me policiar mais. Antigamente eu ia direto ‘(a entrevista é interrompida por nova ligação de outro amigo, falando do enterro)’. Desculpa, onde eu estava?
Você estava falando que antigamente ia sempre para a boemia, mas que agora…
E também estou cansado disso, né, cara? Não vou mais para a rua como eu ia. Já tenho minhas coisas para fazer. Tenho filha pequena. Ah, cara, quero curtir minha casa. De vez em quando, vou para a boemia, mas não vou como antes. Ia todo o dia. Eu vivia na boemia. Hoje, eu vou lá, vejo a rapaziada. E depois não dá mais. Mas estou falando da vadiagem, né? Porque ainda vivo na noite, fazendo meus shows. Se não tiver show, não fico à toa na rua.

(*O repórter viajou ao Rio a convite da gravadora Universal Music)

Crítica do disco ‘Vida Minha Vida’

Um Zeca de amores e tristezas

“Esse meu disco fala com todo mundo”, diz Zeca Pagodinho. Ele está certo. O samba alegre do bamba continua presente, como em ‘Puxa-saco’. O ritmo solto lembra outro sucesso de Zeca, ‘O Penetra’. Com Alcione, ele canta ‘Quem Passa Vai Parar’ (O Rio de Janeiro sempre foi assim / Uma cerveja com um parceiro / Na porta de um botequim). De Zé Roberto, Zeca regrava ‘O Garanhão’, um hit pronto para explodir. Presente na trilha sonora da novela ‘Passione’, da Globo, a faixa tem tudo para seguir o caminho dos outros sucessos do sambista.
Mas é quando canta sobre a dor que Zeca se entrega de verdade. Como na bela ‘Pela Casa Inteira’ (A solidão e a saudade andam pela casa inteira / Sempre dá vontade de chorar). Casa vazia é o seu maior temor. “Vou até em festa de criança para não ficar só em casa”, diz. A realidade do bamba mudou. E isso se reflete no disco.
Hoje, seu dengo é o neto Noah,de 7 meses. É para ele a única música de autoria própria do CD: ’Orgulho do Vovô’. (Sou bom filho, sou bom pai / Quero ser um bom avô). A temática das músicas pode mudar, mas o vovô Zeca segue entre os maiores nomes do samba brasileiro.

LANÇAMENTO
‘Vida da Minha Vida’
Zeca Pagodinho
Universal Music
Preço: R$ 20

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