Jornal do Brasil
RIO - Em abril de 2007, uma lourinha de voz doce acompanhada de cinco marmanjos chamou a atenção da mídia britânica. Era Ali Howar, vocalista do Lucky Soul, com seu disco de estreia The great unwanted, que recebeu elogios dos jornais The Guardian, The Times e da revista Uncut. Em abril de 2010, exatos três anos depois, o Lucky Soul lança seu segundo disco, A coming of age, testa as novas músicas nos shows e divulga o single White russian doll.
Enquanto as bandas aproveitam o hype para passar logo pela prova do segundo disco, o sexteto britânico esperou a poeira baixar. Mas foi o perfeccionismo do grupo a justificativa para a demora do sucessor de The great unwanted.
– Sentimos que este tempo era muito importante fazer as músicas funcionarem ao vivo primeiro, antes das cordas e as outras coisas, então gastamos muito tempo no arranjo, estruturalmente – revela Leidlaw Andrew, guitarrista e líder da banda. – Em relação à gravação, fui muito duro com a banda como produtor, especialmente com os vocais de Ali. Uma das músicas teve mais de 200 gravações, para buscar o sentimento perfeito. Ainda assim, continuo privilegiando a alma sobre a técnica.
Sobre as diferenças do primeiro para o segundo álbum, Leidlaw diz que A coming of age é mais maduro se comparado com a inocência de The Great Unwanted.
– Quisemos fazer um álbum mais quente e direto. Eu vejo The great unwanted como um primeiro amor, mas este disco é mais um relacionamento duradouro. A banda melhorou muito, a execução está ótima e a voz de Ali realmente cresceu. No geral, acho que está bem mais forte, tanto as músicas quanto no desempenho, mas não é uma mudança radical.
Letras sombrias e desesperadas
Lucky Soul é conhecido como um grupo agridoce: enquanto as letras são mais sérias e sombrias, o instrumental é um pop açucarado, colorido e alegre.
– Sempre achei que as melhores músicas eram as animadas, mas ao mesmo tempo muito tristes. Eu não acho que ninguém gosta de canções completamente felizes. No meu país, certamente não. Se você ouvir os temas da Motown, mesmo os mais açucarados, como “Baby, baby, baby não me deixe, por favor não me deixe só”, trazem letras realmente sombrias e desesperadas. Mas você precisa balancear um lado com outro. Música existe para alegrar as pessoas ou ao menos confortá-las, mas sem o lado negro ela fica doce demais e não dura.
Exatamente pela sonoridade e pela doçura da vocalista Ali Howard, o Lucky Soul muitas vezes é comparado às bandas de meninas que buscam uma sonoridade retrô. Mas qualquer comparação “fofinha” não é aprovada pelo guitarrista Andrew Laidlaw.
– Nunca nos enxerguei como uma banda retrô, e nós nunca tentamos alcançar um som sessentista. Obviamente muitas influências são velhas e nós estamos conscientemente tentando resgatar a qualidade dos arranjos, algo que ficou perdido no pop por um longo tempo. Acho que as pessoas precisam te rotular. Uma coisa que odeio é ser chamado de twee (estilo de pop fofo). Eu vi um blog outro dia que dizia: “Acredito que não há nada sombrio nessa banda, eles são só filhotes e arco-íris”. Quando as pessoas te rotulam, há o risco de elas não ouvirem direito a banda antes de tirar suas conclusões.
Não se pode culpar, entretanto, quem vê apenas o lado alegre da banda: o nome Lucky Soul vem de uma expressão em inglês para denominar pessoas que conseguem superar os momentos difíceis sem perder a alegria. Mas, além disso, há uma outra justificativa menos glamourosa:
– Gostaria que tivesse alguma motivação fantástica por trás do nome, mas eu costumava desenhar o logo dos cigarros Lucky Strike quando estava na escola de artes, então queria que minha banda se chamasse “Lucky alguma coisa”. E claro que o soul é uma grande influência, então pareceu se encaixar.
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