sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

JT - Samba de roda com tempero baiano

Jornal da Tarde

Clécia Queiroz canta na Caixa Roque Ferreira, autor veterano que é novo queridinho das cantoras.
Roque Ferreira é o compositor da hora. Faz muitas horas, décadas, aliás, que ele produz maravilhas e veio à tona quando Clara Nunes gravou uma composição sua em 1979. Mas, como disse a cantora baiana Mariene de Castro, em outras palavras, ele é um veterano com perfil de revelação neste início de século. Mariene prepara um CD só com músicas de Roque para o segundo semestre. Conterrânea deles, Clécia Queiroz saiu na frente, com Samba de Roque (independente), que tem shows de lançamento de hoje a domingo no Espaço Caixa Cultural.
O compositor baiano, nascido em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo Baiano, é “descoberto”, principalmente por cantoras. Além de Mariene e Clécia, a potiguar-carioca Roberta Sá há tempos planeja um álbum temático. Maria Bethânia deixou a obra dele predominar em seus dois álbuns de 2009. Fabiana Cozza é gravou várias. A também baiana Marcia Castro se deixou levar por seu suingue, assim como o cantor carioca Pedro Miranda. E por aí vai.
A princípio a cantora, nascida em Ilhéus e radicada em Salvador, planejava um disco de sambas da Bahia. Por incrível que pareça, ela diz que ali ainda há muito preconceito contra o samba, “por parte da elite musical”. E diz que, embora hoje o ritmo seja mais aceito, o samba de roda ainda encontra resistência.
Ela já tinha ouvido falar muito de Roque, mas não conhecia bem sua obra. Quando ligou falando do projeto, Roque mandou a ela logo seis canções. Nas letras, havia termos pouco usuais, de origem africana ligada ao candomblé, mas que Clécia, como estudiosa da cultura afro-baiana, também conhecia - e dá o serviço, em glossário no encarte do CD.
Clécia diz que nem sabia das intenções das outras cantoras em relação à obra de Roque. “Acho maravilhoso que todas gravem, porque ele merece ser muito conhecido. Um cara que tem mais de 400 músicas gravadas e pouca gente sabe disso. Faço questão de falar sempre dele nos shows.”
Neste terceiro álbum, Clécia ia incluir composições Roberto Mendes, Walmir Lima, Dorival Caymmi, Riachão e outros baianos, que estão no show. Rainha do Mar, de Caymmi, é citada no delicioso samba de roda Licuri. Como Caymmi, o grande mestre da baianidade musical, Roque está entre aqueles raros compositores brasileiros incapazes de fazer uma canção ruim - nem mais ou menos, é tudo pra cima de bom.
Samba de Roque é mais uma comprovação disso. A cantora tem dez canções inéditas dele e uma já gravada pelo grupo Sururu na Roda, De Maré (parceria com Toninho Gerais). Completou o repertório com duas faixas bônus: Ciúmes (Dalva Damiana de Freitas) e um pot-pourri de chulas.
O CD foi gravado bem ao espírito das rodas de samba na Bahia, com ela e os músicos tocando juntos, ao vivo, no estúdio. Além dos sambas de roda, Clécia suinga deliciosamente por outras cadências afro-brasileiras, levadas na palma da mão, como ijexá, maxixe, samba angolano e samba-chula. Por três noites, o centro de São Paulo vai ganhar um pouco do clima das rodas de samba, presentes no cotidiano do Recôncavo. A voz e o empenho de Clécia na interpretação desse universo são contagiantes.

DIVIRTA-SE
Clécia Queiroz.
Espaço Caixa Cultural:
Praça da Sé, 111. 3321- 4400.
Hoje e amanhã, às 19 h;
domingo, às 18 h.
Grátis (retirar ingressos uma hora antes)

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