quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

JT - O baião de João

Jornal da Tarde

‘Bim Bom’, de João Gilberto, ganha 3 releituras e desperta discussão sobre possível elo entre baião e bossa nova
Das 11 únicas composições de João Gilberto, Bim Bom é a mais conhecida. Eclipsada pelo marco revolucionário da bossa nova Chega de Saudade (Tom Jobim/Vinicius de Moraes), quando foi lançada no single de 78RPM em 1958, a canção volta com força em três regravações, por cantoras de estilos e gerações diferentes. Além disso, no filme O Homem Que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira, ela é apontada como provável elo da bossa nova com o baião. Para os fãs de João, outra notícia boa é que o álbum Chega de Saudade, com a gravação original de Bim Bom, acaba de sair em CD, mas na Inglaterra (leia abaixo).
Dentre as gravações mais recentes, Bebel Gilberto, com sua habitual má vontade para dar entrevistas e se aprofundar nas respostas, diz que procurou recriar o arranjo original: “Obviamente, sem o violão do papai, mas com o incrível piano do Daniel Jobim.” Ithamara Koorax e o violonista Juarez Moreira gravaram um álbum inteiro só com músicas do baiano, Bim Bom - The Complete João Gilberto Songbook. Na faixa-título, mesclaram samba e baião no arranjo.
A abordagem de Adriana Partimpim (codinome lúdico da Calcanhotto) é a mais surpreendente: juntou a bossa de João com a batida de samba-reggae do Olodum. Caetano Veloso diz que chorou de emoção quando ouviu a gravação do álbum Partimpim Dois. “Sempre ouvi o violão do João Gilberto e o Olodum como duas coisas que juntas são uma só”, compara Adriana.
Tom Jobim já havia observado: “Em Bim Bom você vê a dissociação entre o acompanhamento que ele faz do violão e o que ele canta, gerando essa terceira coisa, importantíssima.”
No texto de apresentação do livro de Walter Garcia Bim Bom - A Contradição Sem Conflitos de João Gilberto, Caetano dizia que, comparada às canções de Tom Jobim, Bim Bom parecia brincadeira de criança. “Por outro lado, ela é uma composição de João Gilberto, e, na sua extrema singeleza, apresenta-se como um pretexto para ele exercitar as mais sutis sutilezas de sua invenção”, escreveu Caetano. Hoje confirma: “É uma grande música. Como Desafinado e Samba de Uma Nota Só, é um manifesto da bossa nova. E é do João.”
“Chega de Saudade era avançada para aquela época, mas o minimalismo de Bim Bom ainda era muito mais avançado. Muita gente preferiu fingir que não tinha ouvido, porque realmente não conseguiu entender. Tem gente que não entendeu até hoje (risos)”, diz Ithamara Koorax.
No documentário de Ferreira, João canta ao violão um dos poucos versos dele mesmo: “É só isso o meu baião/ E não tem mais nada não.” A menção ao gênero popularizado por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, tema do filme, não é gratuita e não se limita à letra. Em depoimento, Caetano Veloso comenta um parecer de Gilberto Gil, que identifica o baião como uma das prováveis influências da bossa de João. É um ponto de vista pouco discutido.
O professor e musicólogo Walter Garcia sintetiza: “A bossa é o espelho do baião: inverte mas reflete; ou reflete invertendo.” No livro Chega de Saudade - A História e as Histórias da Bossa Nova, Ruy Castro conta que João compôs Bim Bom em Juazeiro em 1956 “tentando reproduzir o ritmo das cadeiras das lavadeiras, quando elas passavam equilibrando as trouxas de roupas na cabeça”.
O violonista Juarez Moreira diz que “do ponto de vista do ritmo, samba e bossa nova são a mesma coisa.” Já Bebel acha essa questão “muito difícil e complexa”. “Afirmar que não tem influência seria um descuido meu, mas também afirmar categoricamente seria muita pretensão”, diz a cantora.
Pois não é “só isso” o baião de João. Com apenas 1 minuto e 12 segundos na gravação original, Bim Bom encerra uma estética, ao lado de Chega de Saudade, que, todos sabem, mudou os rumos da música brasileira em poucos segundos a mais.

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