Jornal da Tarde
Mestre Sombra dá as ordens e rege sua orquestra de ritmos com pulso firme.
É um corre-corre que denuncia a entrada de Mestre Sombra no apinhado barracão, que em instantes se esvazia por completo. O breu não intimida os instrumentistas, que tomam a rua em frente à sede da Mocidade Alegre, no Bairro do Limão. A pressão começa no aviso do portão: ‘Campeã do Carnaval 2009’. A bagunça atrai vizinhos: é noite de ensaio.
No meio da rua, o sujeito alto, de boné enfiado na cabeça e corrente de rapper, encara a formação desconexa de 63 caixas, 12 cuícas, 10 agogôs, 12 timbaus, 36 repiniques (ou repiques) e 34 surdos. Olha uma vez, coça a barba por fazer, olha duas, bufa, e começa a arrumação. Com a medida do pé, alinha a distância entre cada fileira, puxa um, separa outro, até que a formação fica quadrada e regular.
Com a naturalidade de quem faz a mesma rotina há 15 anos, Mestre Sombra ordena, com um longo apito, os primeiros acordes. Mal começam a marchar, o passo é acelerado. A marcação ali não é pelo cronômetro da Avenida, mas pelo intervalo do semáforo, que logo vai abrir. Se a bateria toda atravessa o cruzamento, Mestre Sombra segue impassível. Um sinal para o ônibus, outro para os carros de passeio, eles seguem em frente, rumo à rua sem saída.
Lá, Sombra, enfim, mostra as qualidades de um maestro. Um olhar certeiro para um auxiliar dá a dica: hora de puxar o samba-enredo. “Canta, bateria”, ordena. Mais tarde, explica: “O pessoal tem de saber o enredo de cor, é importante. Muitas marcações são combinadas com palavras”.
Entoando o coro da escola, os músicos empunham bravamente seus instrumentos, desafiam o suor e até mantêm a harmonia, mas demonstram o cansaço natural de quem faz hora extra na bateria depois de um dia de trabalho. Mestre Sombra não perdoa e interrompe o som: “Atenção, pessoal, vou falar só mais uma vez. Quem acha que vai no carnaval para curtir, aconselho a comprar um isopor, encher de cerveja e ir lá para arquibancada do Anhembi. Mas não se atrevam a descer.”
Como ninguém ousa discutir, o sermão de Sombra prossegue: “Quem é que foi campeã no ano passado?”. Um bochincho chocho sai dos mais atrevidos. “Como foi? Não ouvi”. E o mestre insiste: “Mocidade!” Como um grito de guerra, o nome da escola explode em mais de 200 vozes. Para finalizar, Sombra apela: “Quero ver tesão!”. Funciona. A bateria recomeça com mais volume e fôlego para mais horas seguidas de batucada. Recado dado.
Por trás da ferocidade do comandante, há um estudioso metódico. “Procuro me inspirar em muitos livros de autoajuda para saber incentivar o meu pessoal”, revela um calmo Marcos Rezende, o mesmo Sombra, em seu escritório, enquanto, já de volta à quadra, os instrumentos são guardados. “Sou reservado, fechadão mesmo, fico observando. Mas quero ter propriedade quando abro a boca.”
A complexidade de liderar uma orquestra como essa tem alguns segredos: “Escola de samba reúne gente com histórias e classes muito diferentes. O desafio aqui é unir todos eles a uma mentalidade.” Algumas dicas práticas também ajudam. No dia do desfile, Sombra reúne a bateria para um lanche reforçado. Chegando no Sambódromo, puxa uma oração: “Eu não decido nada, são eles que têm tudo na mão”, resume. O resto não depende mais dele: “A gente desfila mesmo é para os jurados”.
LINGUAGEM DOS SINAIS
VIRADA DE SEGUNDA
Dois dedos para cima: a bateria vai fazer uma parada e dar um rápido repique para depois retomar a cadência
GINGADO NA PAUSA
Os dois polegares para cima são o anúncio de um breque diferente, que é ‘cortado’ pelos instrumentos
CONTROLE DA VELOCIDADE
Os braços do mestre se agitam conforme a velocidade: “O movimento indica se é para correr ou diminuir a batida”
NO RITMO NA BOCA
Polegar em uma mão, e dedos esticados em outra, chamam mais uma pausa ensaiada pela bateria
OLHA O BREQUE
Cada 'breque' uma pausa no andamento da bateria ganha um gesto diferente: 'É planejamento neurolinguistico'.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
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